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Religião Self-Service


  Nos acostumamos a comer só o que gostamos, ignorando alguns legumes que são mais nutritivos que saborosos. Nos acostumamos a ouvir apenas as músicas que não exigem o “re-ouvir”. As digeridas, sem muitas entrelinhas. Nem dos horários da televisão nós precisamos mais ser reféns, porque tem tudo disponível no site. –Me lembro de guardar os horários dos desenhos quando era criança-. O rádio também não dita mais o que eu escuto no carro. Agora eu tenho Spotfy e tenho meus artistas desconhecidos “alavontê”. Só uso as roupas que eu quero, os perfumes que eu quero, estudo só as matérias que eu gosto, só respondo as mensagens de quem eu não tenho preguiça e na terça que a aula é chata eu não vou.
  Fazemos o mesmo com a religião. Aparo as arestas que me exigiriam muito e invento significados novos para não deixar de fazer o que eu quero. Desenho meu próprio Deus com a cara e as roupas que me convém. Decido as coisas que ele gosta e as coisas que ele não gosta. Liberto meus heróis e dispenso os diferentes de mim. Faço uma mistureba que vai do construtivismo de Jean Piaget ao Xintoísmo chinês. Mantenho o nome Cristo, mas coloquei nele uma pitada da candura budista, duas xícaras de sopa da sabedoria do meu vô, uma colher de Fernando Pessoa e duas de Rubem Alves. Vualá, está feita a minha religião. 
  Mas pra me confortar lembro que todas as já existentes também nasceram assim, no quarto de alguém. Quando esse alguém estava para dormir, naquele momento em que ficamos olhando para o teto... Dos pensamentos dos patriarcas hindus, passando pelas revolucionárias meditações de Lutero, até as grandes navegações de Maomé. Dos longos silêncios de Gandhi até chegar ao meu quarto... Então nos armamos do argumento da Fé, estipulamos nossas regras e as julgamos mais divinas, até a morte.


Prove que eu estou errado.

Como destruir uma grande ideia. Da igreja ao Jiu-Jitsu.


  Das virtudes do homem, sem dúvida a maior é pensar. Enquanto você lê este texto, certeza que em algum lugar do mundo alguma grande ideia acabou de nascer. Quem sabe até a cura da AIDS. O curioso é que esta mesma virtude é também a grande destruidora das próprias grandes ideias! Mais interessante ainda é que, principalmente o processo de declínio, é causado sempre pelas mesmas pessoas. Explico.
  Sempre que um pensamento genial aparece, ele frequentemente conquista multidões em alta velocidade. É algo novo e nós sempre gostamos do que é novo. Sobretudo se esta nova onda for algo que nega a moda atual. Então vão se acumulando os novos adeptos, seguidores, líderes, as novas referências e até os novos ídolos. Tudo vai se atualizando no sentido de transformar o que era novo, em “mainstream”, popular, comum.
  Mas o veneno mortal das grandes ideias está num lugar muito curioso. A causa fatal da decrepitude está sempre ligada às pessoas que mais gostaram de tudo aquilo. Isso mesmo. Os maiores amantes da “novidade” são frequentemente os assassinos da própria inovação. No mínimo, é muito comum que sejam esses os primeiros a sujar a bela história e isso se dá porque eles cometem um erro irreversível. Eles se tornaram radicais. Vou justificar essa opinião com infinitos exemplos:
  • ·      A Maçonaria foi uma grande ideia, mas teve em seus grupos radicais (como a P2, por exemplo) sua imagem ainda mais estragada. Principalmente depois do assassinato do banqueiro italiano Roberto Calvi em 1982. Se acharam na autoridade para isso.
  • ·      A Igreja Evangélica foi uma grande ideia, mas toda a luta de Lutero foi ofuscada por igrejas focadas em dinheiro e pastores despreparados. Aqui o radicalismo também ligou a imagens desses  seguidores a homofobia, intolerância cultural e até xenofobia. Se acharam na autoridade para isso.
  • ·      A Igreja Católica foi uma grande ideia, mas hoje frequentemente quando se fala a palavra “padre”, escapa algum pensamento que envolve “pedofilia”. Sem contar os grupos paramilitares Irlandeses IRA e ETA que explodiram creches paquistanesas. Se acharam na autoridade para isso.
  • ·      A Igreja Islâmica foi uma grande ideia, mas toda a admiração ao comerciante Maomé sucumbiu diante de alucinados aviões que acertam prédios. Metralhadores contra cartunistas. Se acharam na autoridade para isso.
  • ·      A pluralidade Hindú seria um tesouro, mas foi escondida pela perseguição aos Cristãos em Orissa, ou aos muçulmanos em Mumbai. Se acharam na autoridade para isso.
  • ·      O FEMEN é um grupo que defende uma causa legítima, indispensável e alarmante sobre a luta da mulher. Mas perde a razão ao destruir estátuas milenares nas igrejas católicas de Kiev, na Ucrânia. Se acharam na autoridade para isso.
  • ·      O MST é uma grande ideia. Mais do que isso, necessária. Mas vira um desfavor quando invade centros de pesquisa no Paraná e destrói experimentos de mais de uma década. Se acharam na autoridade para isso.
  • ·      As torcidas organizadas são uma grande ideia mas... me recuso a explicar este tópico.
  • ·      Até o Jiu-Jitsu é uma grande ideia, mas toda a genialidade de Helio e Carlos Greice são esquecidos quando topamos com valentes otários estrelando em brigas desnecessárias. Se acham na autoridade para isso.


  Imagino que parar aqui já seja suficiente. Mesmo que os exemplos continuem à encher um livro. Para conclui, termino com um conselho muito simples...


  Sempre que encontrar alguém que gosta muito de alguma coisa, mas muito mesmo, tome cuidado. Ela tem grande chance de se achar na autoridade muitas coisas.

Os novos ricos, os velhos ricos e os pseudo-novos-ricos.



Não dá pra ser taxativo afirmando que o que vou dizer é regra, mas essa minha teoria vem me assustando com a sua recorrência. Tinha tudo para não ser assim, mas na prática parece que é. Me ajudem a tentar explicar o porquê.
Já conheceram alguém que começa a estudar gastronomia e então passa a desaprovar todas as comidas caseiras? E já perceberam que depois de formado ou consolidado na profissão, ele volta a gostar das comidas simples? Já conheceram um estudante de música que ao conhecer o jazz, deixa de gostar do Raul Seixas e passa a ouvir só coisas “difíceis”, tortas, com muitas notas, e depois de publicamente reconhecido como um bom músico, volta atrás e se permite tocar rock com poucas notas? Enfim, isso pode se aplicar em infinitas outras áreas. Moda, arquitetura, letras, publicidade, direito.. A questão é: Quando alguém passa a ter condições de apreciar experiências mais requintadas, elas frequentemente, numa fase inicial, tendem a negar a qualidade do que é “popular” e comum. Pior ainda, desvalorizam qualquer comentário feito por alguém não acadêmico na área, como se não houvesse sabedoria popular. Porém, passado o estágio de autoafirmação, elas se permitem voltar. Isso passa a ser até bem visto. Quantos programas de televisão não mostram grandes chefes de cozinha aprendendo com senhoras donas de casa?
E essa teoria fica muito evidente quando o assunto é dinheiro. Por exemplo: Os não-ricos não tem problema em “farofar” na praia. Não veem problema em saírem de bermuda velha e chinelo. Compram refrigerantes de marcas alternativas e, sem nenhuma dificuldade, sempre dão “jeitinhos” para viabilizar alguma vontade. Ok, até acontecer de enriquecerem e entrarem para o time dos novos ricos (economicamente este é um termo para designar a parcela da população que conquistou uma mudança positiva na renda financeira e ascendeu a classes econômicas superiores, há menos de duas gerações). Aqui, assim como nos exemplos lá do começo, as pessoas tendem a negar os costumes anteriores, à todo custo! Frequentemente tornam-se chatas, exigentes e excessivamente críticas com a comida, com as roupas, com as decorações, com os comportamentos, com o conforto, com as cores, com as bebidas, com o garçom, com as temperaturas dos lugares, com seus direitos, com os funcionários, com o tempo que as coisas levam, com o barulho... Desandam a serem pessoas difíceis de agradar. Nada está bom, nunca. Da balconista da loja, ao recheio dos bolos...
Alguns (poucos) desses conseguem manter a ascensão financeira e depois de algumas décadas tornam-se velhos ricos (por volta de 4 ou 5 gerações depois). É agora que a coisa fica superinteressante e surpreendente. Contrariando a lógica, esses são mais “fáceis” que seus antecessores. Não, não fizeram votos de pobreza, óbvio! Não estou falando que negam o dinheiro ou seus benefícios e experiências. Mas é como se aquela necessidade de autoafirmação agora fosse desnecessária e, de repente, a discrição passa até a ser interessante. E porque saíram da “puberdade da autoestima financeira”, eles se permitem coisas normais e comuns com mais facilidade. É a diferença entre os funkeiros-ostentação e a família Ermírio de Morais, entre os vencedores do BBB e os Matarazzo. Você não vê nenhum Bittencourt queimando notas de 50,00 para acender charutos como os novos ricos das festas de Jurerê Internacional. Claro que existem pontos fora da curva como Narcisa Tamborindeguy, mas realmente vejo que o padrão é outro. E prova disso é que, segundo a Forbes, a maioria avassaladora das famílias mais ricas do país é desconhecida. O cara mais rico que conheci na vida, foi quem me ensinou a dar nó em gravata enquanto me levava para comer pastel na feira do Pacaembu. De chinelo. Ele fazia contratos internacionais em 4 línguas e acredite, não tinha um Iphone...
Ah! Existem também os pseudo-novos-ricos, que não enriqueceram, só são chatos mesmo.
Eu nem sei como terminar este texto porque ainda é algo que estou digerindo e construindo, porque você acha que isso acontece?

A Mulher-Objeto socialmente aceita

(parte 2 de 3)
A mãe de uma aluna é artista plástica e lá eu vi a figura de uma gueixa, quase sensual, e pensei:

No mundo animal, sempre foi o macho o responsável pela árdua tarefa de tentar se tornar objeto de desejo. Afim de angariar fêmeas para reproduzir, eles desenvolveram penas mais coloridas, papos que inflam, sons exóticos e mais um infinito de estratégias. Tudo para tornar-se minimamente cobiçável para o outro, fomentar um apetite por parte do oposto. Mas com a raça humana houve algo de deferente: Os papéis não se inverteram, mas a fêmea deixou seu posto de agente passivo e passou a “investir” igualmente no macho lutando para se tornar também um atrativo. Tal como os Pavões com suas penas, e a Fragata com seu peito vermelho, as mulheres foram desenvolvendo também suas armas. Cabelos, unhas, roupas e adereços são só alguns exemplos de um arsenal cada vez maior para A Missão.
Mas existe um detalhe a se pontuar nos humanos que, imagino eu, seja menos resolvido em nós do que nos animais: nós somos culturalmente machistas. No mínimo temos esta herança histórica. E este machismo, aliado com outras características pessoais como carência, baixa autoestima e até mesmo, simplesmente, gosto, fez com que a figura feminina fosse cada vez mais “objetificada” (tornada um objeto). Não me julgo alguém pudico ou tradicionalista, mas acho curiosa a maneira como tornamos, por exemplo, as redes sociais um Cardápio Humano. É como se estivéssemos perdendo as medidas nessa nossa “propaganda de nós mesmos”. Tudo hoje tem alguma conotação sexual. As músicas na rádio, as fotos na revista, os livros mais vendidos, as novelas e ATÉ (pasmem) os seriados infantis.. E em todos estes a mulher é absurdamente mais explorada. É muito mais comum você ver uma mulher pelada na mídia do que um homem. O que dizer das letras sertanejas? Infelizmente a figura feminina tornou-se um produto consumível e, por vezes, descartável.
Só que existe ainda outro ponto que me surpreende ainda mais: Isso nem sempre incomoda todas as mulheres. Fiz uma pesquisa com 10 mulheres. Perguntei primeiro se elas se incomodariam em serem tratadas como objeto. Todas disseram que “sim, claro”. Depois perguntei se elas se incomodariam em serem conhecidas como um símbolo sexual (um objeto que desperta impulso sexual nos homens por sua aparência física, numa revista por exemplo), apenas 2 não gostariam. Ou seja, parece que “ser objeto” é ruim apenas quando não convém, quando é pejorativo. Existe então a “mulher-objeto socialmente aceita”, aquela que desperta desejo nos homens e, por vezes, é invejada pelas outras mulheres por conta disso. Ser objeto assim, “pode”.
Este comportamento aparece em diversos setores da nossa sociedade. Alguns mais vulgares e escrachados, como um clipe do Mc Catra ou mesmo propagandas de cerveja. Mas também aparece de maneiras mais elegantemente camufladas. Quem nunca foi ao Salão do Automóvel e viu infinitas mulheres inocentemente recheando os carros à encher os olhos dos que passam? Nem estou falando que é errado, mas apenas provando que existem objetificações curiosamente aceitas; que isso é muito mais explorado nas mulheres e que, feliz ou infelizmente, isso nem sempre é um problema para elas.. Por sermos machistas nunca vimos, por exemplo, uma propaganda de bolsa, sapato ou creme anti-idade feita com um moreno saradão de cueca segurando o produto. Mas já cansamos de ver propagandas de guitarras, motos, carros, barbeadores com mulheres “sensualizando”.
Na real, parece que ninguém se incomoda que elas sejam resumidas a, por exemplo, um enfeite de uma marca “com as tetas de fora” (como diria minha avó). Os homens, porque convém e entretém, e as próprias mulheres, porque parece que sacia um aparente fetiche e carência toda essa masturbação de auto estima.
Enfim.. tudo isso só prova que a gueixa chamou a minha atenção e como os homens são bobos... Se eu estou errado? Espero que sim.

Já viu o HINO NACIONAL em FUNK?!


 

Essa semana postei no Facebook um vídeo de alunos da escola Senador Humberto Lucena (Paraíba) dançando uma música na abertura de sua Amostra Cultural. Até aí nada de mais, não fosse a dança um FUNK e a música o HINO NACIONAL. Algumas pessoas não entenderam a minha desaprovação, então aqui vai a explicação do meu ponto de vista:


SOBRE HINOS:. Essa história de ter uma música que representa um grupo de pessoas é muito antiga. Já na Idade Média era comum que músicos compusessem letras primeiro encorajando às batalhas, depois celebrando as vitórias. Lá no Oriente, por exemplo, os exércitos também eram precedidos por músicos e seus tambores. Eles eram a linha de frente dos batalhões de guerra (“taikos”, no Japão). Com o tempo essas músicas foram acumulando em seus versos as histórias dos povos e por isso, ganhando muita importância. Olha só que legal:


“Heróis do mar, nobre povo/Nação valente e imortal/Levantai hoje de novo/O esplendor de Portugal!”. Este é o hino de Portugal, um povo culturalmente marítimo, dos mais corajosos da história antiga. Outro: “Esses ferozes soldados?/Vêm eles até nós/Degolar nossos filhos, nossas mulheres/Às armas cidadãos!”. Este é o da França, que embalou as revoluções do século XVIII. Entende o ponto? Muita gente morreu nesses versos, existem séculos de história aqui. Musicalmente digo que o hino brasileiro é o de encadeamento de acordes e intervalos melódicos mais sofisticado que já vi. Enfim, vamos continuar.


SOBRE MANIFESTAÇÕES ARTISTICAS: Eu sei que a Cultura é algo vivo e em constante movimento. Sei que cada tempo e cada grupo de pessoas tem suas formas de expressão. Sei também que a cultura de cada “gueto” deve ser valorizada e que cada um se expressa como pode e quer. Aliás, tenho um projeto cultural que lida exatamente com essas questões (Projeto Ipê Amarelo/Lei Rouanet/13708 no Diário Oficial). Também já vi o hino nacional “repintado” com várias cores e isso nunca me incomodou. João Gilberto em bossa, Hamilton de Holanda em seu bandolim, Fafá de Belém e até o Carlinhos Brown com seus batuques. Mas todos eles tinham algo em comum. Todas essas versões aconteciam com um certo ar de reverencia. Todos me passaram algo de cortesia, mesura, homenagem, emoção.. havia um temor que me fazia entender que “era alguém oferecendo tudo o que tinha, como presente à música de seu povo”. O Thiaguinho e o Péricles já o tocaram em pagode, e com um respeito e elegância emocionantes. O Angra já tocou em heavy metal, e com uma energia e respeito comoventes. Poderia dar centenas de exemplos bons..


O que se passou é que, por algum motivo, rapazes levantando a camisa mostrando a barriga, meninas com as pernas de fora “levantando a perninha” e descendo até o chão.. por algum motivo isso não me convenceu. Não achei bonito. Reconheço até que houve uma ideia de “vamos maneirar galera”, mas não rolou. Vai ver a culpa é minha.. vai ver eu que sou conservador de mais.. Talvez até seja minha “mente poluída” que ligue automaticamente aqueles movimentos inocentes a algo de insinuante, provocante. Sei é que definitivamente o hino nacional não me dá tesão algum. Ele me emociona e gosto de alimentar esse sentimento para com ele. Não quero entrar no mérito do estilo. Não resuma todo meu argumento em “funk é ruim” ou “é preconceito”, pelo amor de Deus, nem tenho mais saco pra isso. Estou falando que existe um “erótico” transbordante nesse estilo (desde sua origem no RJ) que pra mim, não encontra contexto no hino nacional. Mais que isso, seria a última música onde eu o poria em prática (ou melhor, a última seria Ave Maria, de JOHANN S. BACH).




E se nada disso tudo te fez nenhum sentido, aí eu fico mais triste ainda. Porque a última, das últimas, das últimas tradições que poderia ainda manter algum resquício de nacionalismo saudável, bonito, romântico... se acabou em você.

Cuidado com a Igreja!




A Igreja é a reunião de pessoas. E pessoas interagem com seu meio, refletem e influenciam seus contextos, por isso mudam com o tempo. Logo, a Igreja muda num processo infinito e indomável. Essa condição, à longo prazo, gerou inúmeras denominações, variações de ortodoxia (“crenças corretas”) por vezes antagônicas. Resumindo: é uma porrada de gente, cada um pregando o que quer, de acordo com suas interpretações convenientes.


Já atentava o mestre Paulo Brabo (ou Søren Kierkegaard, quase 200 anos antes) que somos cara-de-pau o suficiente para buscarmos a igreja que mais se acomode a nós, que menos nos encurrale à mudança. Vamos aparando as arestas teológicas até que não incomodem nossas fraquezas. Sei colocar tantas denominações cristãs em ordem de evolução seria uma prepotência irresponsável, mas me permito aqui organiza-las da seguinte maneira, e você há de concordar: A Linha da Responsabilidade.


O desenho representa o percentual de responsabilidade de Deus e do Homem que cada igreja opta por convencionar. As linhas verticais laterais (amarelas pontilhadas) representam o nível de responsabilidade. Abaixo, as letras de A até H, representam diferentes igrejas com suas diferentes distribuições de responsabilidade. Então vamos lá.


Dificilmente alguém busca uma relação com o divino por estar com a vida em ordem. Nunca ouvi quem dissesse “Estou rico, com saúde e com família. Vou procurar uma igreja para frequentar”. Geralmente é na hora da aflição que isso ocorre, talvez por isso seja tão comum adentrar no mundo evangélico pelo lado esquerdo da linha, o da Fantasia (igreja A). Nesta “Disney Santa” aquele que sofre recebe um fôlego quando a culpa e a responsabilidade de tudo é de Deus. Estes dizem frases como “é porque Deus quis assim”, ou “Deus dá, Deus tira”. E assim eles consolam mães que perderam filhos em tiroteios, justificam o fracasso em vestibulares, explicam demissões e o que mais precisarem. Tudo é Guerra Espiritual e o que acontece aqui embaixo é consequência do quebra-pau lá de cima. Eles nunca estudaram menos do que podiam, nunca são a parte “defeituosa” do relacionamento e muito menos os menos competentes na disputa pela vaga de emprego, afinal, Deus está no total controle de tudo.


Não são poucos os motivos que fazem alguém migrar gradativamente para a linha amarela da esquerda, às margens do ateísmo (igreja H). Há quem comece a estudar teologia e perde a fé, há quem se traumatize com as canalhices muitas vezes assistidas no púlpito, ou mesmo aqueles que começam a aceitar que “não, eu também tenho minha parte de culpa nisso tudo”. Esse processo muitas vezes é burro e violento, como todo radicalismo. A pessoa que só aceitava ir à igreja de paletó, agora proíbe o paletó nos cultos! É igualmente xiita, mas às avessas. Trata-se aqui de pessoas altamente confiantes, autossuficientes e, não raras as vezes, desbocadas. De tanto pensarem que a vida é feita de acaso, e apenas dele, já não tem mais assuntos em suas orações. Fecham o olho para orar e pensam: “isso não pode”, “opa! Isso não”, “ixi, isso eu que tenho que resolver” e vão se afastando até flertarem com a infinita rifa do ateísmo e suas meras casualidades eventuais...


É muito difícil afirmar qual é a posição mais “saudável” para uma igreja se estabelecer. Até porque, neste caso, o famoso meio termo (igrejas D e E), não necessariamente representa a melhor opção para todas fases de vida que uma pessoa pode se encontrar no momento. Penso que a saída é sempre ter esse assunto em mente e repensa-lo sempre. A Lucidez não pressupõe o ateísmo, assim como na Fé não se subentende a ignorância e irresponsabilidade.




Seja aqui dentro, ou lá fora, cuidado.

Sobre o seu Ipod, Sambô e um pouco além...



  Hoje é muito normal encontrarmos pessoas se policiando na alimentação. Elas leem os rótulos e contam as calorias. Mais fácil ainda é encontrarmos quem se preocupa com o que veste. Consumidores cada vez mais severos e criteriosos com os tecidos, texturas, cortes e cores. Arrisco dizer que até o linguajar pode ter mudado sensivelmente. Acho que ouve-se menos palavrões nas ruas do que há alguns anos. Muitos pontos estão evoluindo rapidamente e isso é ótimo! Mas eu ainda não entendo uma coisa: porque ainda não aprendemos a importância de também sermos mais cuidadosos com o que ouvimos? Comemos salada, gastamos o salário numa boa roupa, pagamos academia e tentamos até ter posições e opiniões políticas... mas no Ipod, vale tudo.
  Os principais (ou únicos) argumentos são “magina, é só pra se divertir”, ou “é brincadeira”, ou mesmo “olha a batida que contagiante!”. Ok. Eu, como músico, sei da importância, influencia e do prazer de um ritmo envolvente! Mas olhe comigo este exemplo:
  Caso não conheça, existe uma banda chamada Sambô, que ficou conhecida por fazer (e muito bem) versões em samba de músicas conhecidas de outros estilos. Além de uma baita estratégia comercial, foi também uma boa sacada musical, vista a qualidade dos integrantes. Assistindo o DVD –“clima barzinho”, com cerveja e quadris frenéticos-, eu estava realmente gostando, até que.. Começaram a tocar Sunday Bloody Sunday, do U2 (banda que nem gosto tanto). Esta é a primeira faixa do álbum War (Guerra), de 1983. A música narra, e com detalhes, o massacre do exército britânico aos manifestantes (em grande parte crianças) num domingo de manifestação pelos direitos civis. Pra se ter uma ideia, a bateria foi feita para imitar uma marcha militar e a guitarra lembrando uma metralhadora. Olhe a letra:

“Garrafas quebradas sob os pés das crianças
Corpos espalhados num beco sem saída
Há muitas perdas
mães, crianças, irmãos, irmãs separados
Domingo, domingo sangrento
hoje milhões choram
Enxugue as lágrimas dos seus olhos
Nós comemos e bebemos enquanto amanhã eles morrem
Num domingo. O Domingo Sangrento”

  Eaí? Está no clima para canta-la num churrasco com mulatas levantando seus copos? Entende agora o que quero dizer? Ou será que eu estou, novamente, fazendo uma tempestade num copo d’água? Será que realmente não está na hora de amadurecer também o seu ouvido? É como fazer uma música para aquele fatídico dia no Carandiru e canta-lo em coro na Copa do Mundo depois de um gol.
  Se essas situações realmente não te incomodam; Se verdadeiramente pra você o que importa é só o ritmo, a despeito da letra; eu não tenho argumentos suficientes para sanar sua deficiência, possivelmente de criação. Porém, se algo do que disse te fez pensar, deixo aqui a sugestão:

  Assim como você faz com as frituras, com as roupas listradas, xadrezes e com bolinhas, com o refrigerante, com os palavrões à mesa, com as fotos suas que posta na internet... preste também atenção ao que ouve. Não passe tanta vergonha por falta de instrução. Faça questão disso. Afinal, a ignorância só é tratada elevando os níveis de aceitação para com o que deixamos entrar.

Obrigado, Minoru Raphael

Músico.

Dica imperdível aos calouros de qualquer faculdade!


  Amadureci um pouco a ideia que desenvolvi no texto “O Retrocesso da Especialização”. É

verdade, precisamos de pessoas doando suas vidas em pró de um único estudo pontual e específico. Muita gente já foi salva por causa disso e muita tecnologia inventada partiu de pessoas que só sabiam conversar sobre o assunto cujo qual estudavam. Porém, ainda tenho minhas ressalvas, e esta semana acabei me lembrando delas.


Você já teve contato com alguém que começou a estudar alguma coisa e, de repente, ela passa a achar que todo mundo faz tudo errado? Que todos somos enganados pelos nomes mais conhecidos e que ela é muito mais lúcida que o resto? Explico com exemplos infinitos:


1. Começa estudar gastronomia e então a vó que cozinhou a vida inteira passa a ser amadora, não mais uma referência. “Ela nem sabe o que é reduzir um molho”.


2. Entrou na faculdade de psicologia. Pronto, todos são desequilibrados e ela é de uma serenidade ímpar. Agora cita filósofos do século XVIII na janta.


3. Num dia entrou na faculdade de Direito, no outro já é a maior defensora dos direitos do consumidor. Chamo isso de “Síndrome Celso-Russomânica”.


4. Passou a estudar Moda. Agora sai fantasiada na rua.


5. Músicos acadêmicos, nos primeiros anos, não admitem ouvir músicas populares. E todos que aparecem na mídia são ruins. Bom mesmo só ele e seus professores que tocam em teatros para 30 pessoas por 180,00 reais.


6. Agora ela estuda administração. Pronto, o pai, que levou a empresa por 3 décadas é um desatualizado e atrapalhado. Boa é ela que sabe as teorias do 5S e lê esses livros de “auto-ajuda-corporativa”.


Parece que qualquer estudo ou aprofundamento em qualquer conhecimento gera, no princípio do processo, uma petulância sem tamanho. Talvez deva fazer parte da evolução no caminho do saber, “ficar folgado”. Começo a crer que leva um tempo até que as informações, ainda “novidades!”, se assentem e permitam que a embriagues passe e o valor das pessoas lentamente volte. Estudei numa faculdade que tem, no mesmo prédio, o curso de moda mais respeitado do país. Era hilário como as recém iniciadas pareciam viver em outro mundo. Uma roupa mais estranha que a outra. Já as veteranas do 5º ano usavam jeans (sem perderem estilo, claro, mas com muito mais medida).


Talvez também, as pessoas com certa baixa autoestima, quando submetidas a processos pedagógicos eficazes que agregam a ela conhecimentos relevantes, passem a ter algumas de suas carências supridas e se enxerguem então em um lugar inédito de “especialista no assunto”, ainda que apenas na sua casa ou roda de amigos. Isso pode ser a causa da tal insolência.


Ou talvez seja apenas uma forma curiosa de euforia! Sim! A empolgação com tal conteúdo novo é incontrolável e maior ainda é a ansiedade de po-la em prática! -Isso, soa melhor assim-.




Seja qual forem as causas exatas dessas consequências, vale a penas revermos cada um o seu caso pessoal, para que sejamos assim o menos possível. Não por nenhuma causa antropológica ou maiores perigos profissionais, mas simplesmente porque sentar para comer uma pizza na mesma mesa que você pode ser algo cansativo, desagradável e irritante para as pessoas, e só você ainda não sabe.

O que essas 4 coisas tem e comum? (parte 1)

  

 

Aconteceu tudo no mesmo dia. Começou cedo, quando quis ir ao banheiro e uma mulher me dirigiu um alerta verdadeiro, ainda que em tom de brincadeira: “Não esqueça de abaixar a tampa quando sair, hem!”. No exato segundo em que eu estava fechando a porta, já pelo lado de dentro, aquilo entrou pelo meu ouvido e ficou rodopiando em meus miolos pelo resto do dia.


Na hora do almoço, a televisão do restaurante mostrava uma entrevista com um que se dizia “representante dos motoboys”. Havia um nome para a tal instituição que não me recordo agora. Um sindicato talvez... Com ar de “porta-voz”, mas com um português sofrível, o uniformizado respondia a pergunta sobre o relacionamento com os motoristas assim: “A gente só quer passar! É só esperar um segundinho e, depois que a moto passar, o motorista fica livre para mudar de faixa”.


Após a janta encontrei meu amigo Akio, que tem uma floricultura. Iríamos para um aniversário e ele se mostrava incomodado por não estar levando um presente ao nosso amigo. Eu disse “Ué, porque não escolheu uma daquelas tulipas incríveis da estufa da loja?!”. Ele me ridicularizou: “Ah tá, aí eu chego no churrasco do cara e dou uma flor pra ele...”.


O que tudo isso tem em comum? Eu digo. Porque convencionamos algumas coisas sem o menor sentido!? Ou melhor, porque somos tão egocêntricos na hora de convencionar algo?! Porque é que eu não posso chegar para uma mulher e dizer “olha lá hem, não esqueça de levantar a tampa do vaso quando sair!”. De onde vem tamanha autoridade e convicção para falarem em tom de “bronca”?! Porque é que não posso eu gritar ao motoboy “Ei! É só você, ao ver que eu estou dando a seta, reduzir e me permitir trocar de faixa. Então seguir livre!”. Se você, algum dia, já dirigiu em São Paulo, já viu como a fila de motos pode ser algo de fim improvável... Outra coisa. Porque soa, no mínimo, descabido um homem ganhar flores?! Muitos dos homens que mudaram a história da humanidade apreciavam flores. Roma virou o maior império de sua época graças a homens com louros na cabeça. Louros esses que eram o maior prêmio dos jogos olímpicos da Grécia! Jesus em sua chegada triunfal em Jerusalém foi recebido por uma multidão com ramos de palmeiras nas mãos! Leiam meu texto “Minorulandia: O que podemos aprender com as flores.. Não entendo.


Já sei. Farei uma experiência:


· Alertarei uma mulher para que não esqueça de levantar a tampa antes de sair.


· Direi um a um motoboy que ele não é prioridade absoluta sempre.


· Está chegando o aniversário de um amigo. Darei flores.






Veremos o que vai acontecer. Aguardem um momento, já volto.








(O que você acha que irá acontecer? O que você pensa à respeito? Pode dar outros exemplos?)