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O Bem que Amaldiçoa!



            Que há males que vêm para o bem, todos sabemos, mas venho percebendo que também há bens que vem para males. Andando por aí, conheci pessoas com um estranho costume: tornar a benção, um infortúnio. Fazer do seu diferencial, seu ponto negativo! É curioso, mas mais comum do que imaginamos.
           Fui apresentado a um ótimo músico e adorado por todos em sua comunidade, a não ser por sua banda, que tem nele sua maior “canseira”. Apertei a mão de uma referência em “personal trainers” que, após se formar com honrarias numa ótima faculdade, virou motivo de comentários e olhares tortos na academia. Já comi pizza com um homem que ainda teria seu filho se este não tivesse tão cedo as condições de comprar um carro tão rápido, quando ainda era tão imaturo.Era para seu filho estar à mesa conosco... Médicos que se tornaram insuportavelmente petulantes, tamanha a capacidade e conhecimento.
           Não estou dizendo que a excelência é má, mas que a competência sem Amor gera morte. E se entendermos por “amaldiçoado”, simplesmente aquele sobre quem se recai algum mal, podemos até dizer que aquele cara que hoje ninguém aguenta na banda por ser arrogante com sua nova Guitarra top de linha, foi amaldiçoado por ganhar esta guitarra. Aquele menino que jogava bola no bairro com todos e agora na seleção, bem financeiramente, mente na entrevista sobre sua origem, foi amaldiçoado com um talento. O empresário que ao ser promovido, agora só anda em outras rodas, com outras pessoas “mais legais”, este foi amaldiçoado com uma promoção. Aquele que de tanto viajar para trabalhar em sua empresa que não para de crescer, “sem querer” se envolveu com uma segunda mulher, este foi amaldiçoado com uma empresa próspera.       
             Eu não sei cozinhar, e por isso penso em quantas pessoas já encheram a minha cozinha para me ensinar algo! Não sei dançar, por isso já ri muito com alguns amigos e aquele jogo de dança no tapete. Também não sei pescar e deve ser por isso que rimos tanto naquele barco, enquanto o peixe pulava com meu anzol na boca. Minha namorada não sabia comer de hashi, por isso ontem foi tão legal a janta.    
           Aí eu lembro da entrevista do Guga falando sobre ser o número 1 do tênis mundial, e explicando a surpresa que foi sentir uma súbita solidão quando se viu no topo. “Bom mesmo é ser o 2º” brincou ele. Claro que ser competente é ótimo! Isso nem se discute e nem está em questão aqui! Mas algumas pessoas seriam mais legais se não fossem as melhores do grupo em matemática, ou o mais rápido da sala, ou o que pinta mais bonito, ou o que tem melhor pontaria ou melhor chuteira... Eu aprendi que as vezes a maldição de um pai vem dentro de uma Ferrari, que a praga de um médico pode vir com um PhD. Que a pior coisa que pode acontecer com alguém, as vezes é dar tudo certo. E que quando algo dá muito certo, as vezes a pessoa vai embora do corpo e volta alguém ali pra dentro que não gosta de ninguém…
           Gosto sim de procurar sempre ser melhor no que eu faço. Gosto de melhorar minhas coisas todo dia! Os japoneses chamam isso de “Kaisen”, "a melhora constante". Mas não abro mão da posição de sempre não saber algo, apenas porque isso tem enchido a minha cozinha de gente…

Foto: aprendendo a fazer lasanha.