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Oração do Músico

Deus,
  de todas as  cartas que te mandei, guarde pelo menos esta.

Quando eu não estiver mais, que pelo menos minha música seja lembrada, pois foi tudo o que eu tentei ser.
Seja ouvida em viagens de casais enamorados, em qualquer estrada à dois.
Que seja cantarolada mesmo desafinada e com a letra errada, pelo bêbado que tem no cantar solitário o único atraso da morte.
Que a minha música seja sussurrada pela mãe que nina um bebê sírio, em meio a guerra civil.
Que eu tenha a honra de ser a melodia lembrada por um homem leve, que passeia com seu cachorro num domingo, e recolhe o cocô com uma sacola.
Qua minha música seja aquela tocada no ipod de um corredor no quilometro 41 da maratona, e o acelera emocionado. Porque ele achava que não dava, e deu.

  E sejam as minhas notas menos atrapalhadas que as minhas letras. Palavras ansiosas, que se acumulam sem muito enredo, mas embriagadas de Querer Bem.. E quando se agruparem, formem acordes mais bonitos que minhas palavras. E quando se encadearem, melodias Maiores, que toquem os corações que minhas frases não alcançam.

  E quando meu calar for longo como uma pausa de semibreve, que seja como o silêncio antes do beijo. Jamais um vazio.

Que a minha música seja usada em casamentos, que ainda que durem pouco, foram eternos no momento em que ela tocava.
Que console o fracassado. Alimente o miserável. Seja pelo menos um descanso no meio das perdas de quem só vem apanhando.
Que a minha música seja usada num vídeos de fotos bregas, que por serem bregas, fazem os outros rirem acreditando que aquele dia foi mais engraçado do que ele realmente foi.
Que o Vencedor e o menosprezado Segundo Colocado, tenham todos abrigo debaixo da sombra que eu sonhei que Ela fosse. Mas que tenha lugar cativo aos Últimos Colocados e então seja o som do evangelho de Cristo. Que faça todos dançarem ao mesmo rítimo, unindo os diferentes e trazendo dignidade aos excluídos.

Minha música me denuncia e me esconde. Me aprisiona e me liberta.
Amores, derrotas, sonhos e medos.
Valores, desejos, contos, segredos.
Idas e vinhos, vitórias e voltas.

Recebe de bom grado, Deus. Porque eu toco de coração.


Foto tirada pelo meu aluno Rodrigo Calabrez - Mendoza, Bodega do Salentien

Para pessoas ansiosas


  Do meu poeta preferido, um conselho
 “Ao que nada espera, tudo que vem é grato”.
Por muito tempo tentei usar isso para ajudar numa fraqueza minha, Ansiedade.
 
  A ideia era simples: Se o problema é lidar com a Espera, com a Vontade, então, deixar de desejar as coisas com tanta intensidade acabaria com o problema. Tornar-me alguém que “nada espera”, faria de mim alguém feliz com “qualquer coisa que viesse”. Houve até momentos em que eu esperava algo e me aconselharam “não cria expectativa”. Ou mesmo quando recebi uma boa notícia, me disseram “tá, mas para se proteger, nem conta com isso”.
  Mas espera, você realmente acha que não tem nada errado nesta lógica?! É isso mesmo?! Acredita que a melhor maneira de lidar com as frustrações é não permitindo que elas aconteçam?! Hoje eu me libertei deste mau vício e não foi nada fácil. Isso porque agora abracei  um método mais maduro, porém muitas vezes dolorido: Deixar de me fazer de ninja que desvia das pontudas frustrações, e passar a desenvolver maturidade para enfrenta-las quando acontecerem.
  Explico. Viver se privando de grandes expectativas é abrir mão do prazer do “antes”. O nervosismo de antes do beijo, já é o beijo acontecendo aqui dentro. E isso é lindo. Não se permitir gozar de uma ansiedade saudável, por medo, é ser covarde. É empobrecer a vida de tal maneira que não se merece nem a própria vida. O grande lance não é boicotar as frustrações mas sim entender que, a despeito delas, a vida seguirá. E seguirá igualmente boa e inundada num infinito de outras possibilidades! A grande sacada é entender que mesmo que aquilo desse certo e acontecesse, ainda não seria o motivo do sucesso ou fracasso do projeto inteiro. Seja a espera por uma resposta de emprego, a aflição do seu time para se classificar para a Libertadores da América, um grande Amor ou mesmo o seu aniversário... Tudo isso é PARTE, não mais que isso. Os grandes problemas da sua vida não sumirão quando você conseguir em fim comprar o tal carro.
  E entendendo isso, eu me faço completo. Não no sentido de autossuficiência, como alguém que não precisa das outras pessoas. -JAMAIS! A vida, assim como o evangelho, é relacional.- Mas no sentido de estar saudável para esperar algo que me transborde, não que me complete. Sendo então eu o maior responsável pela minha felicidade, eu desobrigo os outros dessa pesada tarefa e, mais do que isso, faço de mim mesmo alguém mais leve para recebe-los em minha vida. Dando a proporção certa a tudo, torno-me livre para desfrutar das prazerosas ansiedades que os pequenos acontecimentos do cotidiano me proporcionam. Sem que isso pare o meu dia. E sem que eles, caso não aconteçam, me deixem esburacados. Para quem aprende encontrar boas coisas nos momentos de frustração, a reversão de expectativa vira aprendizado e mais do que isso, “tudo passa a ser importante e único, da maneira como foi”.
  Então crie sim expectativas.. Pense em como seria legal se desse certo aquilo.. Imagine as situações.. Curta tudo isso desde o antes. Só não morra se não acontecer. Ansiedade pode ser bonita quando representa seriedade. Inquietação e palpitar do peito pode ser bonito quando representa excitação pelo outro. Agitação pode ser bonita quando precede uma surpresa carinhosa. Nervosismo pode ser bonito nas preliminares de um sorriso.... Mas “não esperar nada para ser grato a qualquer coisa que vier”, aí não. Isso é se contentar com migalhas... Fabrício Carpi Nejar fala que “o que ama sozinho, na ausência de atitude do outro, se contenta com qualquer sinal”... Olha que triste! É como um atleta que entra sem a expectativa de pódio, pois “o que vier será lucro!”. Que lucro pobre é esse? A vida é boa e se contentar com qualquer coisa está fora de questão.

Sobre as suas certezas.




Todo mundo é resolvido ao dar conselhos, até estar na pele.
Todo mundo fala com certeza, até dar errado.
Todo mundo tem disciplina pra dieta, até a tristeza chegar.

Há também quem diga que “corrupção” é apenas uma boa ideia para a qual não te chamaram. Isso porque todo mundo é íntegro, até uma proposta irrecusável.

Todo mundo é pela paz, até colocar a mãe no meio.
Depois de sair da escola, é fácil ser contra “cola” nas provas.
Depois de estar casado é fácil pregar o casamento virgem.
Depois que a empresa deu certo, é fácil contar uma linda história empreendedora.

Há quem diga que conselhos são apenas boas intenções de quem também não sabe nada. Isso porque tudo é mais claro quando não estamos no escuro.

Todo mundo tem princípios, até faltar o pão.
Todo mundo é confiante, até não dar. De nenhum jeito.
Todo mundo...
Tudo...



Toda certeza é relativa. Porque o “até que” é um rolo compressor.

+ Poema – Problema





Seja qual for a sua posição política, sua religião ou etnia, todos temos o direito de lutar por grandes mudanças nos vários âmbitos da sociedade. Mas as Grandes Revoluções pelas quais lutamos no Sistema de Saúde, na Legislação, nos Modelos de Ensino e Política, por se tratarem de Processos, levam Tempo. E neste tempo que leva, outras transformações devem acontecer paralelamente. São mudanças internas, pessoais, nada fáceis e não menos indispensáveis.





· Acidentes de trânsito causados por embriaguês ao volante, velocidades irresponsáveis e direção displicente.


· Mortes por motivos cada vez menores, decorrentes de temperamentos desequilibrados e exibicionismos inconsequentes.


· Individualismo e falta de cuidado para com o outro nos mais corriqueiros momentos da rotina.


São exemplos de Problemas que podem ser evitados AGORA.






Esta é uma luta para salvar vidas por meio de “pequenas” mudanças individuais de comportamento. E “salvar vidas” não é apenas “desviar da morte”, mas melhora-la e torna-la mais possível à despeito das muitas dificuldades que ainda persistirão.






· É respeitar as diferentes condições e limitações do outro. (E não entender isso como um “clichê barato”, mas como uma Escolha que realmente pode descartar um desentendimento que poderia crescer à consequências fatais desnecessárias).


· É optar por gerar Vida gratuitamente. Entender que fazemos parte de um todo que pode ser melhorado abrindo uma porta ou carregando uma sacola.


· É não piorar o estresse, inerente à vida moderna, com lixo fora do lixo. Entender que se a correria é “inevitável”, ela pelo menos não precisa acontecer em meio a sujeira.








+ Poema é a Vida Eterna. Não por “não morrer nunca”, mas por tornar a coexistência agradável de tal maneira que, se ela fosse infinita, isso não seria um problema.


Cuidado com a Igreja!




A Igreja é a reunião de pessoas. E pessoas interagem com seu meio, refletem e influenciam seus contextos, por isso mudam com o tempo. Logo, a Igreja muda num processo infinito e indomável. Essa condição, à longo prazo, gerou inúmeras denominações, variações de ortodoxia (“crenças corretas”) por vezes antagônicas. Resumindo: é uma porrada de gente, cada um pregando o que quer, de acordo com suas interpretações convenientes.


Já atentava o mestre Paulo Brabo (ou Søren Kierkegaard, quase 200 anos antes) que somos cara-de-pau o suficiente para buscarmos a igreja que mais se acomode a nós, que menos nos encurrale à mudança. Vamos aparando as arestas teológicas até que não incomodem nossas fraquezas. Sei colocar tantas denominações cristãs em ordem de evolução seria uma prepotência irresponsável, mas me permito aqui organiza-las da seguinte maneira, e você há de concordar: A Linha da Responsabilidade.


O desenho representa o percentual de responsabilidade de Deus e do Homem que cada igreja opta por convencionar. As linhas verticais laterais (amarelas pontilhadas) representam o nível de responsabilidade. Abaixo, as letras de A até H, representam diferentes igrejas com suas diferentes distribuições de responsabilidade. Então vamos lá.


Dificilmente alguém busca uma relação com o divino por estar com a vida em ordem. Nunca ouvi quem dissesse “Estou rico, com saúde e com família. Vou procurar uma igreja para frequentar”. Geralmente é na hora da aflição que isso ocorre, talvez por isso seja tão comum adentrar no mundo evangélico pelo lado esquerdo da linha, o da Fantasia (igreja A). Nesta “Disney Santa” aquele que sofre recebe um fôlego quando a culpa e a responsabilidade de tudo é de Deus. Estes dizem frases como “é porque Deus quis assim”, ou “Deus dá, Deus tira”. E assim eles consolam mães que perderam filhos em tiroteios, justificam o fracasso em vestibulares, explicam demissões e o que mais precisarem. Tudo é Guerra Espiritual e o que acontece aqui embaixo é consequência do quebra-pau lá de cima. Eles nunca estudaram menos do que podiam, nunca são a parte “defeituosa” do relacionamento e muito menos os menos competentes na disputa pela vaga de emprego, afinal, Deus está no total controle de tudo.


Não são poucos os motivos que fazem alguém migrar gradativamente para a linha amarela da esquerda, às margens do ateísmo (igreja H). Há quem comece a estudar teologia e perde a fé, há quem se traumatize com as canalhices muitas vezes assistidas no púlpito, ou mesmo aqueles que começam a aceitar que “não, eu também tenho minha parte de culpa nisso tudo”. Esse processo muitas vezes é burro e violento, como todo radicalismo. A pessoa que só aceitava ir à igreja de paletó, agora proíbe o paletó nos cultos! É igualmente xiita, mas às avessas. Trata-se aqui de pessoas altamente confiantes, autossuficientes e, não raras as vezes, desbocadas. De tanto pensarem que a vida é feita de acaso, e apenas dele, já não tem mais assuntos em suas orações. Fecham o olho para orar e pensam: “isso não pode”, “opa! Isso não”, “ixi, isso eu que tenho que resolver” e vão se afastando até flertarem com a infinita rifa do ateísmo e suas meras casualidades eventuais...


É muito difícil afirmar qual é a posição mais “saudável” para uma igreja se estabelecer. Até porque, neste caso, o famoso meio termo (igrejas D e E), não necessariamente representa a melhor opção para todas fases de vida que uma pessoa pode se encontrar no momento. Penso que a saída é sempre ter esse assunto em mente e repensa-lo sempre. A Lucidez não pressupõe o ateísmo, assim como na Fé não se subentende a ignorância e irresponsabilidade.




Seja aqui dentro, ou lá fora, cuidado.

A História de Theodoro Vassarionovich, em poema.







Desceu do trem. Trazia consigo três tragédias.


Atravessou a Praça Treze. 


Seu traje era fino para o frio que era. Camiseta e cachecol de tricô. 


Não havia mais nada. A vida não lhe dera troco. 


Trapo. Tropo.


Torpe. Atroz. 






Da bituca no chão, um trago.


Do que escapou das mãos, um triz.






O trovão traduzia bem o peito traído.


Tratava-se de algo trágico. 


Um trauma trivial aos que passavam. 


Travado pela bebida, sentou num tronco. Tremeu um trítono de trova antiga.


Mas só um trecho, não lembrou tudo.






Avistou uma porta destrancada. 


Na frente, uma luz vermelha e trêmula. 


Traçou o trópico daqui até ali e cruzou o tráfego tropeçando nos transeuntes. 


“O Cortiço”, trazia a porta. “Mulheres trabalhando”.


Da porta sem triagem, aos trancos, se humilhou até outro andar. Já um triunfo.


Talvez transar amenizasse a tristeza. 






Nunca tramitara por essas trocas. Parecia um trapalhão tentando transgredir seus próprios tratados.






Como no peito já era vazio, pode apenas tratar de esgotar os bolsos.


Trezentos cruzados. Fretou um romance de aluguel.


Qualquer tranqueira. Semblante tétrico. 


Trepou.


Frenético, numa frequência frígida.


Seu corpo em Luto, pela alma que morrera antes. 






Até que ao fundo tremeluziu um tom.


Alguma música...?


(...)


Aquela música! 


Trompetes! 


-Transcendeu-


Trinados de Jazz. Talvez um trio?!


Como uma truta pescada das trevas, aquele tilintar metálico e doce trouxe vida ao homem sem trajes!


Vida! 


Santa trindade!


Do acaso, uma trégua ao coração atrofiado!


Um trilhão de ideias renderam uma Esperança!


Toque! Toque! Toque! -suplicava ao rádio-


E assim, diante de tamanha tribulação, sobrepôs-se a Música, tremenda. 


Num fôlego.




Nota: A imagem foi um presente do artista Gabriel Gudin, especialmente para este texto.

E fez toda a diferença.

Já pensou na Ética dos milagres que você tem pedido?

 
Esta noite passei no hospital acompanhando uma pessoa muito querida. Várias vezes, por angústia no coração, me peguei tendo atitudes que me remeteram a uma “bronca” que levei de um amigo. A reflexão a seguir, bem como os perfeitos exemplos, são de crédito dele.
  Que Deus pode tudo, isso ninguém questiona. Aliás, se não fosse assim, não serviria para ser meu Deus. A questão é “Terá Ele algum escrúpulo para optar em fazer, ou não, alguma coisa?”, “Quando rogamos por um milagre, que tipo de Deus nós estamos evocando?”, “Que tipo de pessoa eu estou sendo quando peço algumas coisas à Deus?”. Isso, o ponto é exatamente esse: Será que Deus não obedece nenhum tipo de Ética?
  Explico. O ônibus que ia para um acampamento capotou, o motorista dormiu ao volante. Apenas um homem sobreviveu, 43 pessoas morreram. Este único sobrevivente chega à sua igreja e dá o seguinte testemunho “Irmãos! Bem como está em Salmos, mil caíram ao meu lado e eu não fui abalado! Deus me guardou debaixo de suas asas!”.
  Outro exemplo: Uma menina está às vésperas de uma grande prova, um concurso público. Então sua mãe organiza um jejum para que sua filha saia vitoriosa. Outro exemplo? Um empresário de sucesso, muito religioso, arrisca uma “tacada ousada” na bolsa de valores. São milhares de dólares em jogo. Antes de dormir ele ora pedindo pela vitória e lembra a Deus como ele tem sido fiel com seu dízimo.
  Que tipo de pessoa você está sendo quando pede determinadas intervenções divinas? Quantas pessoas, quantos valores e quantos princípios o milagre que você está pedindo irá atropelar? O que te faz tão prepotente à achar que Deus salvou o seu parente do câncer, mas não salvou o do quarto ao lado? E isso leva a outra pergunta, pior ainda: Que tipo de Deus é esse ao qual você está seguindo?! Será que você era o mais santo e puro daquele ônibus? Será que você é a pessoa que estudou mais para aquela prova? Será que, diante de realidades degradantes de vidas abaixo da linha da miséria, a duplicação de uma fortuna na bolsa de valores é mesmo um pedido honroso de milagre?
  Sei que diante de um coração apertado, muitas vezes não raciocinamos direito e não percebemos que nossos pedidos estão atropelando valores, princípios e pessoas. Entendo que, até por Amor e carinho, torcemos muito para que algumas coisas aconteçam. Mas, mesmo diante dessas situações, não podemos usar a religião, a fé, Deus e o que mais for, de maneira tão egoísta. Deus não é uma ferramenta, uma máquina onde colocamos fichas e pedimos por milagres sempre que precisamos. Eu acredito que a vida é um turbilhão de acontecimentos, bons e ruins, que tornam nossa vida um infinito de possibilidades. Somos responsáveis por nossas atitudes e pelo que fazemos de nossas vidas e isso em nada diminui o poder de Deus! Apenas reafirma a coerência de um Deus que não controla, mas Ama.

  Deus não está no AVC (para dar algum tipo de punição ou lição), ele está na busca pela cura. Deus não permite acidentes para aprendermos algo com isso, ele chora diante da irresponsabilidade humana e senta ao lado da mãe na sala de espera do hospital. Reafirmo que não questiono a onipotência de Deus para realizar coisas impossíveis, ou mesmo de atender pedidos. Mas não consigo fingir que não vejo as implicações éticas de alguém que deposita suas esperanças num milagre egoísta e nega o próprio cristianismo numa atitude, não de Amor, mas de TRAPAÇA.

A beleza de estar indo

  Vendo um amigo falar sobre a parábola da mulher e o fermento do pão (Mt 13:33), minha cabeça foi longe. Ele dizia sobre as coisas que crescem dentro de nós silenciosamente e comentava a cerca das incoerências humanas. Voltando pra casa, não parei de pensar:
  Frequentemente nos deparamos com características e condições que nos surpreendem, até sobre nós mesmos. De repente vemos uma foto antiga e percebemos o quão gordo estamos hoje; vemos um calendário e procuramos a última vez que fizemos exercício, que visitamos aquela pessoa... Outras coisas são mais sérias: um homem casado que ao ver uma mulher “dando mole”, subitamente se espanta ao sentir que “aceitar o flerte” não é mais tão absurdo e distante como era há alguns anos. Ou um fiscal que inesperadamente se vê aceitando propina para facilitar algo que jamais cogitaria no início da carreira...
  O que aconteceu comigo?! nos perguntamos. A questão não é o que aconteceu, mas o que vem acontecendo. Que tipo de fermento vem ganhando volume em mim. Ninguém fica gordo de um dia para o outro, ninguém volta da academia na Segunda e vira sedentário na Terça. Ninguém ao menos sente saudade daquele que viu no dia anterior. Assim também nenhum honesto passa à “facilitador” em uma tarde. Nenhuma “surpresa matrimonial” aparece no dia seguinte a um dia verdadeiramente entregue ao amor.
  Já vi dizerem por exemplo que “a ocasião faz o ladrão”, mentira. O “ladrão” e suas possibilidades, as conjecturas sobre “como seria?”, a articulação de “e se eu fizesse?”, os pensamentos e as suposições já aconteciam internamente numa fermentação silenciosa e maldita. O que houve então na ocasião, foi tão somente uma Ebulição. O ladrão já havia.
  Assim como as construções, as desconstruções também são processos e não instantes. E é por isso que sou tendencioso a nunca aceitar com muita entrega, os “salvos-instantâneos”. Me refiro aqui principalmente aos maus-vícios, às mudanças de caráter, aos maus costumes alimentares. Não sou pessimista e tão pouco descrente dos milagres, só acho cômodo demais, superficial demais, esquisito demais transferir uma responsabilidade que é minha. Me esquivar de um combate que é meu. Covardia, não valentia. Esperteza, não expertise. É como levantar a mão num apelo de qualquer pastor e “pronto, agora estou salvo. Vou para o céu”. Pode até ser um marco, uma data, mas o negócio começa mesmo é no primeiro dia útil de trabalho, no primeiro dia de aula, no primeiro dia de trânsito.

  Até mais beleza eu vejo nos procedimentos, na labuta diária, na recusa do bolo e do dinheiro. Torna mais legítimo. E eu não sou desses que acha que “pra ser válido, tem que ser difícil”, não! Mas acho que alguns problemas de nossa natureza devem ser encarados com coragem e maturidade. Fica mais humano assim, e por isso vira celeste. Até Cristo em seu momento de dificuldade não usou de sinsalabim! ou pó de pirilim-pim-pim! Ele caminhou –literalmente- por sua luta sem fórmulas mágicas.
  As flores levam o ano todo para construírem a primavera, um pardal constrói um ninho graveto por graveto, as uvas levam anos para virarem vinho e mais ainda para virarem vinagre. Engatinhamos muito antes de andar e levamos anos para conseguir correr. Fiz muita bolha no dedo para conseguir tocar a Suíte para piano e flauta do Claude Bolling.

  Se tudo faz tanto sentido assim, cuidado com os pequenos favores, cuide dos grandes amores e coma mais salada. É que “de repente” tudo cresce...

Como você se sentiria?

  Na casa do Pedrinho as coisas funcionam um pouco diferente. Desde seu tatara-tatara-tatara-vô, lá no japão, eles acreditam no culto às forças da natureza e na reverência à memória dos anciãos de sua família. Há quem chame de xintoísmo. Como é comum em casa de japoneses, na casa dele também existe um lugar para kami (), onde flores, sal e água nunca faltam.
  Agora suponha que você estivesse passando por um grave problema de saúde. Grave, com médicos desacreditados. Vendo sua aflição e todo o desconforto que se contorce em você, seu amigo Pedrinho –que sempre esteve ao seu lado; amigão presente desde aquele gol perdido no campeonato da 4 série-, ele não aguenta e decide fazer algo. Num ato de desespero misturado com Amor, ele escreve seu nome numa folha de arroz e chorando, pendura num galho da sakaki ( ), árvore da vida, sagrada para eles. Então ele passa quase uma tarde toda pedindo àquelas divindades que te ajudem a se livrar deste mal. Ele faz isso porque é como ele aprendeu que “pode dar certo”. É a maneira que lhe ensinaram a pedir ajuda em última instância, apelando ao divino que ele conhece.
  Como você se sentiria? Como reagiria quando soubesse? O que saber dessa ação geraria em você? Algo bom? Talvez um incomodo por não acreditar naquelas divindades? Ficaria feliz? Isso “vale”? Seria ruim? Pediria que ele “desfizesse”? Agradeceria? Se emocionaria? Ficaria bravo? Como você se sentiria?
  E se esse seu amigo não fosse xintoísta, mas evangélico, e levasse seu nome para uma reunião de oração no monte? Seria mais fácil de aceitar? E se ele fosse espirita? Talvez umbandista? E se ele fosse um índio tupi-guarani e, por você, rogasse à Iamandu (ou Nhanderu ou Tupã), Deus do trovão? E se ele fosse católico e por acreditar que “pode funcionar”, ele pega uns pães, água e um tenis, e sai à pé em romaria até a cidade de Aparecida do Norte, na catedral?
  Me diga, como você se sentiria?




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O que é Espiritualidade?

  Em 1991 nasceu a Lei de Incentivo à Cultura, popularmente conhecida como Lei Rouanet. Por meio dela, qualquer pessoa com um projeto cultural (aulas de música na comunidade, amostra de arte, cinema ao ar livre, etc) pode conseguir benefícios financeiros do governo. Mas para isso, existe um criterioso processo de legitimação do plano.  Nele, um quesito se faz principal: Provar que a execução desta ideia gerará benefícios para além de seu autor. Demonstrar como tal iniciativa pode vir a ser uma vantagem para aquela escola, aquele bairro, aquele grupo, aquela classe... Simples assim.
  Entendo por Espiritualidade (viva), algo bem parecido com um projeto de Lei já aprovado. Uma escolha consciente diante de uma condição ou experiência pessoal e intransferível. A iniciativa de organizar interiormente valores que, quando movidos pela fé (que é a confiança e a vontade de que o projeto dê certo), desencadeia um bem coletivo. Acredito que, assim como um projeto cultural, uma Espiritualidade só tem relevância, beleza e razão de ser, quando transforma uma pessoa de maneira a torna-la um benefício para seu redor. Uma fonte vida que transborda à inundar a rua toda.
  De que vale um monge espiritualmente equilibrado e zen, se ele se confinar no alto de uma montanha? De que vale uma candeia acesa se colocada sob a escada de uma casa vazia? De que vale o melhor dos violinistas, se este optar por apenas tocar quando estiver à léguas de distância da pessoa mais próxima? Acaso não vale mais uma Tubaína com os amigos do que o melhor dos vinhos francês tomado sozinho por uma viúva? De que vale um tabuleiro de xadrez para o que está só? Qual a relevância do pastor, padre, monge ou professor mais devoto e intelectual da terra, se este se recusar a abrir a boca ao que precisa ouvir? Ele não vale nada. E mais do que isso, torna-se algo desprezível.
  Minha preferência pelo cristianismo me fez entender que, se há de existir uma salvação, essa só pode ser coletiva. Parafrasearia Sartre dizendo que “O céu são os outros” ou melhor  “O céu só é, se com os outros”. O céu sozinho seria um inferno.

  Só se pode esperar relevância de uma espiritualidade que alcance o outro. Só se pode aprovar um projeto cultural que estenda suas estratégias de ganho para além do que articula. E assim como qualquer iniciativa da lei Rouanet, cada um também pode idealizar sua própria espiritualidade com as cores, perfumes e sabores que julgar bom e vantajoso, mas a expressividade, a fartura, a importância, a proeminência, o valor… a beleza... só existe nos projetos aprovados e nas espiritualidades vivas.
Tetelestai.