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O poema da toalha roubada



Já há algum tempo que eu inventei de tomar banho sempre roubando a toalha da minha irmã. Não importa se a minha está seca e ao lado, só uso a dela. Com a autoridade de alguém de 12 anos ela se emburra e, contrariada, tem de se secar com a minha. Hoje escreverei este texto pra ela, explicando tudo.
  Tuca, sabe, eu venho percebendo que estou ficando mais velho e que logo trocarei de fase, como as cigarras ou as lagartas que crescem e se mudam para outras árvores. Passarei para alguma outra etapa da vida que ainda não sei explicar. O que sei é que nos teatros todos os cenários mudam e as vezes até os personagens. Para permanecer em cena precisamos criar algo de Eterno em nós. Por isso pensei em alguma coisa que me colocasse pra sempre na sua parede, como um quadro bonito que sempre te gera um sorriso fácil quando passa por ele. Pensei nas toalhas...
  Um dia eu posso não estar mais por aqui, ou você. Não estou falando que vou morrer hahah, mas que a vida é viva e os caminhos são de infinitas possibilidades lindas! Então um dia, quando for tomar seu banho (e espero que você tome banho todos os dias hem!) você vai olhar para sua toalha, rir e pensar “caramba.. filho, deixa eu te contar uma coisa que me deixava doida na sua idade. Meu irmão sempre me roubava a toalha e eu ficava louca! Hahah”. Talvez ele não entenda nada, mas neste dia você irá entender que eu me tornei eterno em você.
  Não cobre dele entender, mas pense em algo que também te faça imortal na vida dele.. anos depois ele entenderá, ainda que apenas no dia em que ele for tomar banho e a toalha que estiver lá seja a dele mesmo...

O Deus pobre da Igreja Universal, e seu exército.


  Tenho pra mim que todos precisamos acreditar em algo. A crença no divino é uma necessidade humana desde os homens das cavernas. Sempre útil para justificar o inexplicável, para encorajar diante do medo, para sentir-se cuidado. Sempre foi assim. Não sabiam a explicação do trovão, é Deus. Não sabiam explicar as pragas na plantação, é Deus. No leito de alguém doente e sem esperança, ter algum objeto celeste ao qual recorrer é sempre uma chance a mais.. Enfim, é algo que criamos para tornar a rotina mais possível, porque viver nem sempre é fácil. Imagina sozinho..
O problema é que também temos em nós uma parte má, dominadora, gananciosa, egoísta. E quando o homem percebeu que a religião poderia ser uma ótima ferramenta para a manipulação do mais fraco, a coisa degringolou. Fomos gradativamente reduzindo Deus aos nossos interesses e à nossa cultura. Inventamos dogmas, cerimônias e rituais. Criamos o pecado e dissemos que ele deveria ser perdoado apenas mediante a “pagamento” (indulgências do século III). Inventamos uma “purificação” para legitimar o extermínio de tudo o que é diferente do que pensamos ser certo (inquisição do século XII). E a coisa foi crescendo até que hoje, para muita gente, religião virou coisa mais cega que torcida organizada de futebol. De repente, para um estar satisfeito o outro precisa ou pensar igual, ou estar aniquilado. O diferente passou a ser errado e deve ir para o inferno (que também é um lugar para onde vão todos, menos nós e os que se parecem com a gente).
  Essa semana vi que a Igreja Universal inventou um exército. Na hora pensei nas Cruzadas! Eram movimentos militares cristãos que saíam da Europa Ocidental para enfiar goela abaixo o cristianismo no povo da Palestina do século XI (ocupados pelos Otomanos Mulçumanos, na época). Achei tudo isso revoltante e decidi explicar meu ponto de vista didaticamente em 3 fotos:

1- Criamos costumes completamente fora da realidade do ser humano e porque é assim, as pessoas vivem em crise tentando seguir algo que é “simples e fácil”. APRENDA A SER UM BOM FIEL: não roube (ok). Não mate (ok). Ignore as vontades sexuais, seja puro de coração, não peque, não fale mal de ninguém, não inveje, ore todo dia, seja feliz e não duvide de Deus e tudo o que acontecer é porque ele quer. Só.

2-Nessa luta incessante consigo mesmo, os seguidores de religiões radicais vão criando uma personalidade bipolar. É como se por fora eles fossem santos, mas por dentro, onde ninguém vê, é o único lugar onde eles podem manifestar suas vontades e curiosidades. QUÃO SANTOS SÃO ESSES SOLDADOS DA UNIVERSAL PARA APONTAREM O DEDO NA CARA DE ALGUÉM?! Nesta foto existe uma mulher, que como todas as outras tem na natureza a vaidade, o gosto pela beleza, a sensualidade. Mas isso foi castrado e ela deve usar roupas que escondem tudo. Porém... O que quero dizer é que perderam a mão. Algo que era bonito e fazia bem, hoje poda, coage, mutila, traumatiza. Faz das pessoas inimigas delas mesmas! Então ficamos procurando “jeitinhos”! As crentes da Assembleia não podem usar calça, só saia. Então usam a saia mais apertada possível.. bem justinha.. Entendem o ponto? Existe uma natureza que não pode ser demonizada!

3-Mas o pior é que não guerreiam apenas com elas mesmas, lutam também contra as outras pessoas! Tudo o que é diferente do meu deus, é do demônio! Eu duvido que jesus seja alguém contra a pluralidade cultural. Duvido que se ele aparecesse hoje ele destruiria os lindos templos gregos, as catedrais romanas, os jardins budistas.. Isso é de uma ignorância sem limites. É ofensivo ao próprio Deus. E criar um exercito para gerar paz?! Exército não é local de homens livres. Exército não é local onde as pessoas podem expressar suas individualidades. Exército não é local de respeitar o diferente, exatamente porque pressupõe -até por conceito- uma unidade de visão, objetivo, parâmetros e até roupas... Exército é feito para lutar contra alguém, inevitavelmente. Deus jamais faria um exército. Ele faria uma festa com todas as cores, todos tipos de comidas, músicas e aromas. Deus é pela paz. Pela unidade dos diferentes, sem que isso exija a destruição das culturas. Tenho pra mim que Jesus, Maomé, Gahndi, Abraão, Buda, Lutero e todos os outros ficariam decepcionados com o que fizeram com suas boas ideias.

  Eu não acredito no Deus de vocês. E se ele for verdadeiro, continuarei acordando todos os dias, compondo músicas e escrevendo textos contra este Deus ruim. Lutarei com todas as minhas forças, pois um Deus tão pobre não serve para ser o meu Deus.

A beleza de estar indo

  Vendo um amigo falar sobre a parábola da mulher e o fermento do pão (Mt 13:33), minha cabeça foi longe. Ele dizia sobre as coisas que crescem dentro de nós silenciosamente e comentava a cerca das incoerências humanas. Voltando pra casa, não parei de pensar:
  Frequentemente nos deparamos com características e condições que nos surpreendem, até sobre nós mesmos. De repente vemos uma foto antiga e percebemos o quão gordo estamos hoje; vemos um calendário e procuramos a última vez que fizemos exercício, que visitamos aquela pessoa... Outras coisas são mais sérias: um homem casado que ao ver uma mulher “dando mole”, subitamente se espanta ao sentir que “aceitar o flerte” não é mais tão absurdo e distante como era há alguns anos. Ou um fiscal que inesperadamente se vê aceitando propina para facilitar algo que jamais cogitaria no início da carreira...
  O que aconteceu comigo?! nos perguntamos. A questão não é o que aconteceu, mas o que vem acontecendo. Que tipo de fermento vem ganhando volume em mim. Ninguém fica gordo de um dia para o outro, ninguém volta da academia na Segunda e vira sedentário na Terça. Ninguém ao menos sente saudade daquele que viu no dia anterior. Assim também nenhum honesto passa à “facilitador” em uma tarde. Nenhuma “surpresa matrimonial” aparece no dia seguinte a um dia verdadeiramente entregue ao amor.
  Já vi dizerem por exemplo que “a ocasião faz o ladrão”, mentira. O “ladrão” e suas possibilidades, as conjecturas sobre “como seria?”, a articulação de “e se eu fizesse?”, os pensamentos e as suposições já aconteciam internamente numa fermentação silenciosa e maldita. O que houve então na ocasião, foi tão somente uma Ebulição. O ladrão já havia.
  Assim como as construções, as desconstruções também são processos e não instantes. E é por isso que sou tendencioso a nunca aceitar com muita entrega, os “salvos-instantâneos”. Me refiro aqui principalmente aos maus-vícios, às mudanças de caráter, aos maus costumes alimentares. Não sou pessimista e tão pouco descrente dos milagres, só acho cômodo demais, superficial demais, esquisito demais transferir uma responsabilidade que é minha. Me esquivar de um combate que é meu. Covardia, não valentia. Esperteza, não expertise. É como levantar a mão num apelo de qualquer pastor e “pronto, agora estou salvo. Vou para o céu”. Pode até ser um marco, uma data, mas o negócio começa mesmo é no primeiro dia útil de trabalho, no primeiro dia de aula, no primeiro dia de trânsito.

  Até mais beleza eu vejo nos procedimentos, na labuta diária, na recusa do bolo e do dinheiro. Torna mais legítimo. E eu não sou desses que acha que “pra ser válido, tem que ser difícil”, não! Mas acho que alguns problemas de nossa natureza devem ser encarados com coragem e maturidade. Fica mais humano assim, e por isso vira celeste. Até Cristo em seu momento de dificuldade não usou de sinsalabim! ou pó de pirilim-pim-pim! Ele caminhou –literalmente- por sua luta sem fórmulas mágicas.
  As flores levam o ano todo para construírem a primavera, um pardal constrói um ninho graveto por graveto, as uvas levam anos para virarem vinho e mais ainda para virarem vinagre. Engatinhamos muito antes de andar e levamos anos para conseguir correr. Fiz muita bolha no dedo para conseguir tocar a Suíte para piano e flauta do Claude Bolling.

  Se tudo faz tanto sentido assim, cuidado com os pequenos favores, cuide dos grandes amores e coma mais salada. É que “de repente” tudo cresce...