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A História de Theodoro Vassarionovich, em poema.







Desceu do trem. Trazia consigo três tragédias.


Atravessou a Praça Treze. 


Seu traje era fino para o frio que era. Camiseta e cachecol de tricô. 


Não havia mais nada. A vida não lhe dera troco. 


Trapo. Tropo.


Torpe. Atroz. 






Da bituca no chão, um trago.


Do que escapou das mãos, um triz.






O trovão traduzia bem o peito traído.


Tratava-se de algo trágico. 


Um trauma trivial aos que passavam. 


Travado pela bebida, sentou num tronco. Tremeu um trítono de trova antiga.


Mas só um trecho, não lembrou tudo.






Avistou uma porta destrancada. 


Na frente, uma luz vermelha e trêmula. 


Traçou o trópico daqui até ali e cruzou o tráfego tropeçando nos transeuntes. 


“O Cortiço”, trazia a porta. “Mulheres trabalhando”.


Da porta sem triagem, aos trancos, se humilhou até outro andar. Já um triunfo.


Talvez transar amenizasse a tristeza. 






Nunca tramitara por essas trocas. Parecia um trapalhão tentando transgredir seus próprios tratados.






Como no peito já era vazio, pode apenas tratar de esgotar os bolsos.


Trezentos cruzados. Fretou um romance de aluguel.


Qualquer tranqueira. Semblante tétrico. 


Trepou.


Frenético, numa frequência frígida.


Seu corpo em Luto, pela alma que morrera antes. 






Até que ao fundo tremeluziu um tom.


Alguma música...?


(...)


Aquela música! 


Trompetes! 


-Transcendeu-


Trinados de Jazz. Talvez um trio?!


Como uma truta pescada das trevas, aquele tilintar metálico e doce trouxe vida ao homem sem trajes!


Vida! 


Santa trindade!


Do acaso, uma trégua ao coração atrofiado!


Um trilhão de ideias renderam uma Esperança!


Toque! Toque! Toque! -suplicava ao rádio-


E assim, diante de tamanha tribulação, sobrepôs-se a Música, tremenda. 


Num fôlego.




Nota: A imagem foi um presente do artista Gabriel Gudin, especialmente para este texto.

E fez toda a diferença.

Pinheiros, Amoras e Mulheres...


Na frente de casa existe um lago cercado de Pinheiros. Desde criança, nunca entendi direito a utilidade ou beleza dos Pinheiros. Eles não fazem sombra, pois suas folhas são “agulhadas”. Também não dão frutos, apenas pinhas secas; não permitem que as crianças subam e brinquem neles, pois são altos e cobertos por uma casca grossa e melada, e, não bastasse tudo isso, ainda atraem raios. Pois é, nunca entendi pra quê tantos pinheiros em volta do meu lago.
Por outro lado, sempre fui apaixonado por amoras. Meus pés, quando criança, eram sempre roxos e meus lábios e mãos pareciam frequentemente dedurar esse meu gosto. A Amoreira sim é uma árvore louvável. Ela tem folhas largas e férteis que fazem sombra, galhos firmes nos quais podemos subir e, como se quisesse fazer um agrado a todas as crianças do mundo, permite que seus galhos pesados de frutos sempre fiquem à altura dos braços. Eu amo as Amoreiras e elas sempre me provaram à recíproca. 
Do outro lado da rua, na calçada em frente aos Pinheiros, existe uma linda Amoreira. Gorda, cheia, roxa, feminina, com pássaros que nela pousam, com pessoas penduradas.. Todo mundo, quando passa por ela, sempre olha para ver se tem amoras. Tenho pra mim que os Pinheiros nunca lidaram muito bem com isso. Na verdade as pessoas até procuram não passar perto, já que toda hora cai uma pinha pontuda num lugar aleatório. E sempre foi assim, parece que a rua separa dois mundos completamente diferentes. Tenho várias lembranças de meus amigos e eu, com bicicletas daquele lado da rua, nunca do outro. 
Hoje eu tive que acordar mais cedo e saindo pra rua, vocês não imaginam o que aconteceu! Certamente o Pinheiro, que sabia que eu nunca saía àquela hora, aproveitou para ousar. Não aguentou o charme lilás da Amoreira e tentou atravessar a rua! Aquele Pinheiro, mesmo no alto de sua altivez longilínea e prepotente não foi forte o suficiente diante do convite feminino da Amoreira. Eu não estava acreditando que ele havia cedido a tal ponto! Até que enfim mostrou-se gente, dessas de verdade, que ama e tem libido! Mesmo tentando me conter, ele percebeu no meu olhar algo de “eu sempre soube que você não era tão durão”. Diante do meu carro ele quebrou, literalmente, óbvio que na tentativa de simular um acidente e me fazer não perceber. Pobre pinheirinho... Também sou homem, sei como essas coisas funcionam.. De frente à ele a Amoreira, melindrosa que só, estava mais vermelha do que nunca. Mas, dessa vez, um vermelho de charme, não de amora. Deliciosamente degustava a cena de desajeito protagonizada pelo Pinheiro pego no pulo. Com o orgulho de qualquer mulher, se demorava no prazer que isso lhe dava. Afinal, era a prova de seu poder de provocar! Por algum tempo ficamos ali, nós três (sim, eu de “vela”). Não vou negar que não facilitei; fiquei ali plantado assistindo aquele flerte mal sucedido, aquela paquera improvável, aquele impulso apaixonado. 
Comecei a respeitar o Pinheiro. Tem que ser muito homem pra fazer o que ele fez. Ele abriu mão da sua fama de mal, da sua zona de conforto e pôs-se ali, à mercê do julgamento imprevisível da Dama de Roxo. Abdicou de todos os seus metros e agora estava lá, todo atrapalhado, embolado na fiação elétrica.. Mas, de cabeça erguida. Parecia que ele havia pensado muito antes de fazer o que fez e sim, concluiu que tal tentativa valeria a sua vida. Era ali, diante de mim, um homem com um propósito que valeu sua vida. 
Ah, mesmo depois de eu explicar toda a história para o moço da companhia elétrica, ele continuou bitolado na ideia maluca de que foi um raio o causador de tudo aquilo. Eu pensei “É exatamente o que o Pinheiro queria que eu pensasse..”. Dei uma risadinha de canto de boca e segui meu caminho, já estava atrasado.

Na minha época (mostre aos seus netos)


 O ano era 2056. Ivox era um homem muito apaixonado que um dia tomou coragem e enviou, por tele transporte, uma linda apresentação em holograma para Ashyrl,  sua musa inspiradora. Ao receber, foi paixão a primeira vista. A mulher não aguentou e o amor se desenrolou em infinitas conversas onde, com ajuda das projeções de retina em alta definição, o arrepio era real! Baixaram então um aplicativo de Iphone que captava e unia seus espermatozoides e óvulos, tiveram uma filha e viveram felizes para sempre!
  Em 2068 o mundo estava mais evoluído. O Homem percebeu que escrevendo à mão, suas mensagens de amor ficariam mais “pessoais”. Inventaram então o aparelho de Scaner! Jovens por todo o mundo trocavam e-mails com fotos de folhas desenhadas e escritas de próprio cunho!
 Quando a década de 2080 virou, o homem era outro. Descobriu que Encostar era algo muito mais prazeroso e foi aí que inventaram o jato supersônico. Agora os amantes podiam, em questão de minutos, se encontrarem, saírem para jantar fora e regressarem à suas respectivas cidades antes que o ponteiro marcasse meia noite!
  Em 2093 a tecnologia não parava de evoluir e eles perceberam que se a viagem demorasse um pouco mais, as pessoas poderiam ficar mais tempo juntas! O lançamento do ano foi o Avião Bimotor, com seus assustadores 200Km/h aumentava a viagem em quase 4 horas! Nessa altura os casais em toda a Terra já estavam trocando, pasmem, seus bilhetes sem escanear. Alguns mais adiantados ousavam até borrifar um pouco de perfume no papel antes de mandar. Criaram um serviço chamado correio. Foi o frisson. A moda era mandar coisas de verdade, concretas, reais. Imagina?!
  Parecia que não ia parar. Quando o milênio virou, a grande sacada foi colocar os dois motores do avião em um barco. De 4h, as viagens passaram para 8h e nesta época as pessoas começaram, com certo desajeito ainda, a darem as mãos.
  Mas foi só em 3021 que Heldel teve A Sacada, utilizar a força do vento para locomoção. Fez então o que chamou de Veleiro e dessa maneira tudo ficou mais lento. Até as refeições em pílulas foram trocadas por alimentos não processados (muito aos poucos, claro, para o organismo não estranhar). Algumas refeições levavam horas, parecia que as pessoas não queriam sair das mesas pois estavam possuídas por um tipo de prazer estranho, Encostar.
  Em 3031 ou 32 perceberam que se o homem utilizasse mais fisicamente seu corpo ele viveria mais. Então um gênio chamado Pierre Michaux uniu as duas coisas, saúde e locomoção no que batizou como Bicicleta. A moda pegou. Não só casais, mas agora famílias inteiras pedalavam por toda a Terra e paravam apenas para almoçarem. Algumas até pegavam alimentos de verdade e, crus, aqueciam usando fogo e temperavam com folhas secas –manjericão, coentro e orégano-. Pode parecer ousado mas outro dia vi aqui perto de casa um casal encostando uma boca na outra. Sim, sem nenhuma proteção ou aplicativo de Iphone intermediando a atividade. Assim, na lata!

  Hoje estou num veleiro com alguns amigos e vendo tudo assim como é hoje, duvido que meus netos acreditarão que lá atrás, na minha época, tudo o que tínhamos eram mensagens virtuais...

O maior elogio que se pode receber.


Outro dia, sentados na calçada, meu avô e eu conversávamos sobre qual era o maior elogio que alguém poderia receber. Na verdade só eu falava. Ele me ouvia com aquela cara que ele faz quando já tem uma resposta muito melhor, mas me deixa desenvolver até o fim, só para depois eu ter mais material para comparar e ver como ele estava certo. Isso é uma brincadeira bem dele, o primeiro dos Minorus.
Prolixamente, como convém a um neto, garimpei todas as classes de adjetivos que eu conseguia lembrar. Explicativos, restritivos, locuções adjetivas, poéticos, não-poéticos e quando não tinha mais nem superlativos que vencessem aquela cara de “já ganhei”, eu desisti.
-Simples, ele disse.
-Ok. Qual é então?
-Esse! “Simples”! Este é o maior adjetivo que alguém poderia receber.
-Óbvio que não! Eu prefiro muito mais “inacreditável”, “inalcançável”, “celeste”, “incorrigível”, ou mesmo “Ideal”. Talvez até... “Perfeito”?
-Todos estes adjetivos trabalham dentro do campo de possibilidades imagináveis pelo sujeito adjetivado. Em todos eles, por menos prepotente que se possa querer parecer, é possível sonhar, fantasiar, considerar onde está um determinado topo e lá, naquele lugar, entender que este “elogio maior” o colocaria. Trata-se de um topo tangível, por mais distante que seja. Quando alguém diz que o outro “é simples”, e claramente não se trata de uma classificação socioeconômica, os parâmetros vão para outro plano, acolá das medidas possíveis do elogiado. O que ele está querendo dizer é: Pela minha balança, suas qualidades, seus talentos, seus encantos e interesses te agregam um valor que fazem de você uma possibilidade imensuravelmente maior do que você se permite aparentar ou mesmo imagina merecer ou atingir. Ainda que fosse deselegante, toda e qualquer forma de arrogância, orgulho, altivez ou sobranceira seria justificável para alguém de sua altura e competência. Mas, a despeito de tudo, à mim, parece elegantemente menos do que podia. Ou simplesmente, “mais simples do que realmente é. Por ser muito mais”.
-Eita... entendi.
E a competição acabou assim, sem réplica e com ele me sorrindo à sumir com os olhos.

Ao meu avô, um homem... simples.

Não riam de mim.







 Como toda criança, eu também tinha as minhas manias. Mas uma delas gerou grandes consequências em mim, era a mania de tentar adivinhar. Tentava adivinhar tudo, qualquer coisa.
Como uma pessoa reagiria se eu dissesse isso; pra que lado o carro amarelo vai virar; qual a primeira palavra do professor quando entrar na sala; o que teria de almoço; depois de quantos segundos o programa vai voltar do comercial. Tudo. Sem critério nenhum, tudo mesmo.
  De tanto não dar certo eu acabei me frustrando e elaborando uma teoria. A probabilidade de eu acertar UM acontecimento entre o infinito de possibilidades que o acaso pode promover é tão improvável que “sempre que eu pensar em algo, isso não acontecerá”.
  Nossa... aí a frustração tomou proporções imensuráveis. Sempre que eu começava a imaginar algo fantástico; que alguém me surpreenderia; que eu ganharia o que tanto queria; que eu venceria fazendo o gol; que eu acertaria a questão primeiro; que aceitaria meu convite, isso não aconteceria. Afinal, eu tinha pensado aquilo! “Que vacilo! Eu já imaginei isso!” era o que eu lamentava.
  A saída foi adotar basicamente duas alternativas para minimizar meu infortúnio. Primeiro eu me segurava ao máximo para não pensar em nada do “melhor que pudesse acontecer”. Claro, senão aí sim é que não aconteceria mesmo! Para me ajudar a ocupar a mente e impedir que eu “estragasse tudo”, eu usava a segunda estratégia, pensar só nas piores coisas que poderiam acontecer.
  Caramba, mas isso era tão ruim... é como criar coragem para falar com uma garota imaginando ela te voltando um tapa. É como entrar num jogo de futebol imaginando você tendo uma crise de incontinência urinária antes de bater o pênalti. É entrar pra fazer a prova imaginando que você vai esquecer tudo! Sei que é duro, mas fazia todo sentido. Afinal, Conjecturando esta possibilidade eu, estatisticamente a anulava. Era uma baita segurança, convenhamos.
  Só eu sei o que eu passei aqui dentro. Sério. Agora mesmo eu estava no banho pensando em  uma surpresa que eu queria receber. Antes de terminar de me enxugar eu pensei “Puts, pensei!”.
  Caramba...