Você sabe porque a igreja lida tão mal com o Sexo?



(parte 3 de 3)

Para responder essa pergunta vamos entender qual era o contexto da “Primeira Igreja”, lá atrás, nos primeiros séculos depois de Cristo. Antes, lembre que o homem e a mulher ainda eram escravizados pela visão mítica do mundo, limitados quase que apenas à percepção dos seus sentidos. Ninguém sonhava em explicar os raios a partir de "nuvens eletricamente carregadas”, entende? Neste cenário, duas correntes filosóficas foram muito influentes na formação das primeiras doutrinas cristãs. A Primeira foi o Platonismo: No Livro Sétimo de A República, Platão define o homem como alguém escravizado pelos sentidos. A Salvação viria pela Razão. O homem que mais enfraquecesse seu “conhecimento sensível” (prazer tátil, por exemplo), seria “liberto do erro”. A segunda corrente filosófica influente foi o Maniqueísmo. Organizada por Mahni em 250 a.C., ela defendia que nós somos produto de uma “catástrofe original” onde o mal se fundiu com o bem gerando a raça humana. E nesse resultado, o corpo é uma herança maligna e a alma um resquício de Deus. Basicamente, ele instituiu uma simplória lógica dualista onde Deus está de um lado junto com tudo que é espiritual e o Demônio ficou do outro lado, com tudo que tem a ver com o corpo. Nesta época, até os médicos (pessoas de respeito) eram predominantemente agnósticos e ascetas, o que em nada ajudava na discussão. Foi em meio a tudo isso que a igreja do século II se consolidou.
Os primeiros cristãos seguiram nesse sentido, sempre tentando mostrar aos agnósticos que eram eles os certos. O pessimismo sobre o corpo e seus prazeres sensíveis só foi crescendo, até ter seu ápice no século IV, com Agostinho. Este era tão devoto às doutrinas negativistas que chegou a ser maniqueísta por 9 anos antes de se converter ao catolicismo. Tal ideia de separação de corpo e espírito imperou até o século XIII, quando Tomás de Aquino contradisse Agostinho com a teoria do homem como um “ser integral”. Ele dizia “Deus é Simples (Uno!) sem divisão de partes. Assim também somos nós, à sua semelhança”. Foi um avanço, mas o sexo ainda estava demonizado e a figura da mulher não tinha nenhuma expressão respeitosa no assunto.
Por um avassalador sincretismo essa cultura “assexuada” foi passando de era em era, até hoje. Do Maniqueísmo e Platonismo, para o catolicismo, até contaminar o protestantismo no calvinismo, luteranismo, pietismo e todos os “ismos” em que se dividem as igrejas atuais. O resultado é uma variação moderna dos confessionários inventados no século XII: alimenta-se sempre um clima de culpa, sujeira e promiscuidade quando o assunto é alguém que transou. Aliás, a igreja de hoje conseguiu alargar a confusão de conceitos como sexualidade, promiscuidade, homossexualidade e até pecado entrou na história. Pastores fantasiados de “modernos”, “descolados” e “jovens” forjam pregações pseudo-esclarescedoras em “rodas de papo cabeça com a mocidade”, onde o diálogo é cheio de gírias “da galera”, mas o cerne do discurso ainda é aquele lá de cima, de “prazeres táteis pecaminosos”. A prova que o relacionamento corporal ainda transborda ressalvas é que eles usam até a expressão “prazeres da carne”. É justo acrescentar que educar e instruir um grupo gigantesco de pessoas com um discurso "libertário-responsável" demanda tempo, preparo e coragem. E que é também muito perigoso, já que pressupõe bom senso de pessoas de todas as origens. Mas na balança, ainda não me convence.
Eu não sou a favor da promiscuidade. Não organizo orgias, não frequento prostíbulos e muito menos banalizo o ato. já provei isso no meu texto "Sim, Sexo". Meu ponto é que vejo essa lambança mentirosa feita por muitos líderes religiosos gerando desinstrução e acabando com a beleza de algo potencialmente lindo. Rubem Alves, por exemplo, em seu livro Variações sobre o Prazer trata o assunto com uma delicadeza e respeito emocionante.
Reconheço também que algumas lutas pela liberdade, no meio do caminho, ajudaram a embaralhar ainda mais as definições de algumas palavras. Quem vê hoje imagens da “revolução liberal” de Woodstock, facilmente pode confundir liberdade com libertinagem e está aí a questão. Devemos conversar e descriminalizar o Sexo. Não com desrespeito, devassidão, depravação.. mas com poesia, respeito, integridade, candura e inteireza. Não com a “porra-louquisse” de “paz e amor” ou “sexo, drogas e Rock’roll”, mas com intimidade, encanto, cumplicidade, alento... Não como “crentes programados” obedecendo ordens e regras “santas” que estipulam quando e o que pode ou não, mas como seres humanos conscientes, racionais e responsáveis. Isso é santidade.

Sem deixar de ser excitante...

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8 comentários:

  1. Dificilmente uma "religião" tratou a mulher como o Cristianismo. Jesus Se deixou tocar por uma mulher hemorrágica que a sociedade tratava como a um cachorro sarnento. Contra todos e tudo Jesus Se deixa tocar por ela e a reintegra àquela sociedade. Quando Ele ressuscita, aparece primeiro para uma mulher e faz dela a primeira - portanto, a mais importante - propagadora da grande novidade. As mulheres são colocadas numa posição de cuidar das pessoas mais necessitadas nas primeira igrejas, órfãos e viúvas. Tais pessoas - órfãos e viúvas - menosprezados naquele tempo, indefesos e incapazes de se sustentarem, são acolhidos pelas mulheres da igreja e têm a sua dignidade restaurada justamente pela religião, hoje em dia, injustamente acusada de machista. E é justamente a "religião machista" que ensina que o cara "cabra-safado da mulésta" tem que ser marido de uma só mulher, ser fiel a ela, honrá-la como Cristo honra a Igreja, etc e etc. Sinceramente não consigo ver a Bíblia com esses olhos liberais!

    A questão dos cristãos serem "maniqueístas" acho que é bem anterior a 250 a.C. como você colocou. No Velho Testamento já vemos essa dualidade na humanidade. Mas o mais interessante é que o Cristo reconheceu isso na sociedade em que Ele viveu. Ele disse "...vós sendo MAUS, sabeis dar BOAS coisas a vossos filhos." e a pergunta é: não somos isso mesmo? Ou existem pessoas que são apenas boas e outras que são apenas más? Deus nos fez bons, mas quando O desobedecemos, não estamos agindo de modo mal?

    Não consigo ver a Bíblia colocando o sexo como algo maléfico. Pelo contrário. Há um livro na Bíblia altamente erotizado que "apimenta" as relações sexuais. A única coisa é que isso é estimulado, pela Bíblia, entre um homem que pertence a uma mulher e vice-versa, ao marido e a esposa. Há problema nisso?

    Abraço, Marcos.

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  2. Não disse que a Bíblia é machista. Não disse que as pessoas são unicamente más ou boas. Todavia, sou completamente contra a teologia que trata o homem e a mulher como maus, incapazes, sujos... Também em nenhum momento mencionei a bíblia. Embora nada me excite o livro de Cantares.

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    1. A Bíblia é extremamente machista. Eu digo.

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  3. Gostei do contexto histórico, é bem por aí... e concordo que o Livro de Cantares não é excitante, até por que ele não foi escrito para esse fim. Mas embora não tenha citado a bíblia não podemos descartar o que ela nos diz sobre o sexo, embora infelizmente há interpretações equivocadas e “machistas” de muitos lideres religiosos, eles sim são machistas e não a bíblica como foi dito, pois a mesma(a bíblia) em nenhum momento diz que o sexo é “sujo” ou o tratado como algo pejorativo, ela só nos mostra(se cremos) que é saudável uma vez que é praticada por homem e mulher e na esfera do casamento. É isso que penso!
    Minoru, gosto muito de suas postagens! Alimenta nosso senso critico.

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  4. Amigo Minoru, parabéns por outro texto maravilhosamente bem escrito e com conteúdo!!!! Esetou esperando o próximo!!!!

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  5. Você questiona a maneira como os líderes cristãos tratam a sexualidade em suas congregações. Mas e você? Crê que o sexo só deve ser feito após o casamento ou não vê necessidade disso?

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  6. Oi Ronaldo, obrigado por ler o texto.

    O que acredito está para além disso. Não acho que o casamento tem o poder de deixar as pessoas preparadas para o sexo. Não é uma data que determina isso. Muitos casais são promíscuos e já estão casados há anos. Pra mim o que deve ser prioridade são outras questões mais importantes que um símbolo:
    -Quais as minhas intenções em iniciar uma vida sexual?
    -Qual tipo de relacionamento eu tenho e pretendo ter com essa possível parceira?
    -Eu respeito essa pessoa para além do interesse sexual?
    -O que isso vai gerar nela?

    e até, muito importante,:

    -Eu sei dos riscos de doenças que isso pode envolver e sei como prevenir, em respeito a mim e ao meu parceiro?



    Enfim Ronaldo, definitivamente, quando a igreja resume e simplifica o casamento como um divisor de águas entre pode e não pode, eu acho mais do que ridículo e triste. Eu acho perigoso, como tudo que acontece quando se sobrepõe a religiosidade à vida.

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