O Homem que teve a sorte de ser assaltado

  Há algumas horas eu estava com a cabeça sob a mira de uma arma. Foi uma situação complicada que não vem ao caso, mas que ressignificou muita coisa. A principal delas foi que precisamos aprender a lidar com RECOMEÇOS. Tudo precisa constantemente de ser renovado. Atualizado. Talvez por isso eu sempre prefira dar flores ao invés de vasos.. Gosto da ideia de que elas morrerão e eu precisarei repô-las a alguém.
  Frequentemente nossa história empaca porque não queremos abrir mão de planos feitos. Muitas vezes a nossa vida para porque não reprogramamos a rota, não nos desapegamos de projetos ultrapassados, medos vencidos e até pessoas que teimamos em não deixa-las ir. O Emicida cantou uma vez que “eu me refaço a cada passo, como reflexo nas poças”, e o Mia Couto escreveu “eu morro só de mentirinha, como as árvores no Outono”. Também ouvi uma história sobre 3 pescadores que voltavam decepcionados de uma pesca no mar da Galiléia, e um poeta sugeriu “joguem as redes uma vez mais! Tentem do outro lado!”. São recomeços.
  Sempre falei que a minha palavra preferida é “resiliência”, pois retrata a capacidade de um bambu ser entortado até o limite e não quebrar. Mas hoje ressignifiquei isso também: Resiliência não pode ser confundida com “teimosia”. Uma insistência cega em repetir algo irracionalmente, em retornar incansavelmente para o lugar onde se estava. O reflexo nas possas se refaz a cada paço sim, mas sempre passa a refletir algo novo. As folhas que caem no Outono não são da mesma cor que as que nascem na Primavera. Aos pescadores a sugestão teve um detalhe importante: “voltem e joguem a rede novamente DO OUTRO LADO”. Entendem meu ponto?
  Foi a Donasereia que disse “Novos ventos só trazem mudanças se soltarmos velhas ancoras”. A vida sem recomeços é uma ilusão infantil, mas a resiliência sem olhar crítico é burrice. Ninguém é obrigado a acertar. Aliás, bonito mesmo é ver quem não para de recomeçar, de tentar de infinitas maneiras. Thomas Edson disse que antes de acender a lâmpada, ele aprendeu 999 maneiras que uma lâmpada não acende. E o Marcelo D2 já gravou mais de 200 músicas porque ainda está “à procura da batida perfeita”.. Drummond repetia “procuro uma canção que faça acordar os homens e ninar as crianças”. E no fundo é só isso mesmo.. Recomeçar, mas com a resiliência inteligente.. E se essa busca for eterna, já valeu mais do que quem vive estagnado, acomodado. Perdido na maldição de continuar eternamente preso na mesma versão de si. Acho que é por isso que eu me encontrei nessa coisa de CrossFit. Por que é como na música, todo dia eu vou lá e NÃO consigo algo. Todo dia eu preciso recomeçar e tentar de novo, entendendo que meu maior obstáculo sou eu mesmo. Seja num piano ou numa barra, de tanto repetir, chega uma hora que o corpo não responde mais e aí eu me pergunto “o que é que eu estou fazendo aqui?”, “porque é que eu estou fazendo isso?”... Na resposta dessas perguntas está a distância entre as pessoas que vivem e as que apenas existem. 

  Pra terminar, me permito a irresponsabilidade de uma sugestão ousada, mas que faz muito sentido pra mim: Aceite o assustador desafio de colocar tudo na balança e encarar as respostas. Seu trabalho é relevante pra você ou apenas te sustenta? Sua religião te faz melhor ou apenas te deixa mais chato? Suas postagens não passam do que você gostaria de ser? Se prender às pessoas que você se prende tem sido saudável? Quanto do seu sonho você viveu hoje? Seu casamente tem valido a pena? O que você está fazendo com seu corpo, seu dinheiro...

Se preciso, recomece logo. Pois tudo pode acabar em um gatilho. 

Oração



Abba, pai..
  Dessa vez estou escrevendo para não esquecer nada.

  Tem acontecido tanta coisa, tão rápido. De repente eu cresci. Estou realizando sonhos e vivendo desafios emocionantes. Mas curioso, não sinto medo. Acho que é porque percebo sua presença em todo tempo, e de alguma maneira, isso me acalma.
  Eu ando um pouco agitado, mas queria te dizer que eu percebo. Eu tenho visto seu cuidado.. Deixou o céu todo laranja bem quando eu tive uma folguinha pra ficar lá fora. Me abraçou através de uma menina de 6 anos e fez os 3 semáforos demorados segurarem o verde no dia do dentista. Ontem eu dormi muito bem e quando levantei pra ir ao banheiro ainda faltava muito pro despertador tocar, do jeito que você sabe que eu gosto. Tenho feito mais exercícios e parece que isso está gerando uma correnteza boa por aqui. Hoje uma mãe de aluna trouxe várias coisas saudáveis para o intervalo das 16h.
  Obrigado pelo Luan e pelo Davi, o caminho é mais leve quando a gente ri. Sê com eles na volta pra casa, toda noite, e com as aflições que partilhamos. O Leonardo Gonçalves disse “Que a minha voz e a minha dor estejam em sintonia com o mundo ao meu redor”. Me faz sensível à eles.
  Obrigado pela minha casa e tudo que ela tem dentro. Eu comprei uma tevê um pouco maior, mas não quero perder as minhas prioridades. Eu sei bem que isso é uma doença perigosamente lenta e silenciosa. Te sinto mais naqueles que me esperam até tarde para o jantar. Eles são tudo que eu tenho, então me ajuda a honrar a história de quem veio antes... E se lá na frente não der certo, que pelo menos seja algo bonito para meus netos contarem numa fogueira.
  Queria te agradecer pelas pessoas que tem cruzado meu caminho. Tenho aprendido muito com elas. As vezes dói, como aquilo que eu sentia no joelho quando era criança. Chamavam de “dor de crescimento”. Não deixa eu atrapalhar a vida de ninguém e faz de mim um fôlego pra quem tem cruzado desertos. Você sabe que eu tenho essa mania de acreditar nas palavras, então afasta de mim os falsos homens, e não permita que mulheres deselegantes se demorem na minha cama.
  Às vezes recebo mensagens de pessoas de longe. Elas me contam de suas angústias e eu não sei o que responder. Então, de todo o meu coração eu apenas consigo doer junto. Fico perdido, e frustrado por estar perdido. E na impotência de não ajudar, me rendo como Isaias em “Eis-me aqui, envia-me a mim”...
  Agora minha semana é preenchida por centenas de pessoas, e eu falaria uma noite toda sobre cada uma delas.. Sonda meu coração e vê como é verdadeiro o querer bem que sinto pelos meus meninos. De todas as idades, cores e credos.. Te vejo em todos eles. Hoje a Lê aprendeu a ler partitura super rápido.. caramba.. O Lucas parece que está indo melhor em Matemática, o Victinho nunca mais sentiu o cotovelo operado e a Isa vai cantar a música mais difícil da vida dela... A Lorena pediu tanto que eu até furei a dieta, fomos comer pastel na feira. Tudo bem amanhã queimamos no CrossFit. Alías, abençoa aquele lugar, eles mudaram a minha vida e a Anninha está gravida.

  Sabe que sou impulsivo, teimoso e até carente. Me apaixono na fila do pão. Então desculpa algumas insistências, não é falta de fé.. É só ansiedade.


Tetelestai.

A linguagem dos olhos

  Sempre gostei de escrever. Saí da escola e continuei levando redações para a professora Yukiko por quase 3 anos. Mas depois que eu cresci um pouco mais comecei a perceber que existia algo além, como uma nova linguagem que não era escrita. Notei que as mãos, os pés, a respiração, tudo também me passava mensagens recheadas de significados. Fui me aprofundando e conhecendo autores como Pierre Weil e Roland Tompakow que ensinavam sobre as mãos suadas, pés inquietos, boca seca, poros dilatados, pele arrepiada, lábios, braços, dedos, inclinação do corpo, direção dos joelhos e eles, os olhos.
  Nada denuncia tanto a alma como os olhos. Talvez por isso os jovens mintam tanto pela internet, porque estão seguros da exposição do olhar. Talvez por isso a tarja preta vá só nos olhos, porque se eles estão cobertos a intimidade não vaza. Talvez por isso um olhar inesperado valha mais que mil toques. E também faz com que um beijo com olhares desviados não valha nada. Acho que era pensando no poder dos olhos que o Leminski disse “repara bem no que eu não digo”. Tom Jobim compôs “Pela luz dos olhos teus”, e o Djavan disse que “o mar vazou de uma paixão, atravessou os meus olhos e encheu a minha mão”. Entende? Em algum momento tem que passar por eles..
  Se rodear de pessoas bonitas é legal, mas gostoso mesmo é estar com quem entende seus olhares. Quando o comentário maldoso jamais poderia ser falado, você só olha e o outro já sacou tudo. Mais do que isso, te olha de volta sorrindo, sem usar a boca. Isso é cumplicidade, e a parceria também vem por aí. Se o Amor vem de dentro não tem outro lugar por onde sair.. Eu escreveria um livro inteiro sobre certos olhares. Alguns pedem mais um pedaço do bolo, outros pedem ajuda com as compras e há aqueles que ensaiam outro tipo de pedido, em segredo. As vezes na intimidade os olhos se fecham sem querer, mas é aí que estão mais abertos que nunca. Também fecho os olhos para ver melhor a música. É olhando nos olhos que eu te guio aos meus desejos, e é olhando nos olhos que eu cumprimento quem pensa que me assusta. A cabeça erguida simboliza coragem não pela posição do pescoço, mas porque assim os olhos focam no que está por vir.

E se meus olhos me deduram tanto, já adianto que com eles eu tiro fotos mentais suas e as guardo na minha lata de biscoitos, para te comer quando você não está.
A alguém, que um dia possa vir a chamar de “a menina dos meus olhos”...

  

Gandhi e os caras da 4ª série


  Quando eu tinha 9 anos, só era “da hora” quem conseguia atravessar a piscina do condomínio inteira por baixo d’água. As pessoas do mundo eram divididas em dois grupos: as “que conseguiam”, e o “resto”. Eu quase consegui várias vezes, mas quando passava da linha da escadinha ia me dando um pânico e eu ia batendo os braços cada vez mais rápido, rápido, rápido! E levantava pra respirar.. Até que um dia a Priscila resolveu fazer o aniversário dela onde? Isso, na piscina.. Era o meu fim.. Enquanto eu era do grupo do “resto” só perante “os caras da 4ª série”, tudo bem, mas na frente da Priscilla?! Oloco... aceitei que minha vida social acabaria na quinta-feira. Pensei até que poderia ter a sorte de cair e quem sabe quebrar um braço e assim não poder entrar na água, mas nada aconteceu. Infelizmente a sexta-feira chegou e eu estava super saudável.. Na festa, claro que chegou a hora “dos que conseguiam” se mostrarem, e claro que uma hora olharam pra mim. Eu todo gordinho, branquelo, orgulhoso desde pequeno e ainda mais com a Priscilla olhando, caminhei pra borda como quem caminha para a ponta da prancha de um navio pirata.

Pulei. Nadei como se não houvesse amanhã. E pela graça e misericórdia do Deus todo poderoso, não sei explicar como, encostei a mão na outra borda sem respirar. Ao contrário do que acontecia dentro da minha cabeça, por fora eu saí da piscina normalmente, como se fizesse aquilo todo dia... A Priscilla não sabia que eu conseguia. Na verdade nem eu sabia! Mano, agora eu era da turma “dos caras”..

  Muitos anos depois li num livro a história de um cara que se achava paralítico. Sabendo que um sábio passava pela cidade, foi até ele e suplicou pela cura. O sábio olhou pra o paralítico e respondeu “ué, levanta e anda!”. O resto do poema conta que o doente levantou, pegou suas muletas e voltou andando! Aconteceu um milagre! Ok, mas o milagre não foi o paralítico andar, e sim passar a acreditar que ele podia. E aí está a maior beleza do sábio. Por onde ele passava, fazia as pessoas serem melhores e terem mais fé, por meio dele. O Gandhi dizia que “o homem bom reaviva a fé das pessoas que cruzam o seu caminho”. A Priscilla nem imagina o quão Gandhi ela foi pra mim. Missionária Dorothy, Madre Tereza, Chico Xavier, meu avô e até o Ceia do Cavaleiros do Zodíaco.. Por algum motivo as pessoas saem mais fortes e capazes da sua presença. Não por glória deles, mas porque eles ajudavam as pessoas a soltarem suas muletas. Cristo tinha este poder.
  As pessoas procrastinam muito os seus avanços por covardia. Atrasam sua evolução por medo de encarar os conflitos. Evitam desconfortos e por isso estendem os períodos de mudança e sofrimento. Por falta de disciplina continuam obesos, por comodismo continuam doentes e preferem dizer que não conseguem só para não terem o trabalho de evoluir. Aumentam os pesos na academia migalha à migalha alegando “cautela”, mas no fundo é medo e preguiça. Passam anos sem atravessar a piscina por baixo d’água acreditando que não conseguem. Se escondem atrás de cursos, casamentos, necessidades especiais, empregos, falta de dinheiro, deficiências...

  Onde você poderia estar hoje se lá atrás alguém, ao te ver suplicando socorro, te dissesse “ué.. levanta e anda!”. Amanhã você ainda estará lambendo suas feridas? Pelo amor de Deus, largue as suas muletas e passe para o time dos “caras da 4ª série”, já está ficando feio...

A beleza de estar indo



  Quando você ouve uma música, não fica ansioso para saber como é o final dela pois o prazer está no ouvir. Quando alguém dança, não existe um lugar  do  salão onde ela almeja chegar ao final da música, pois o prazer está no “dançar”. Quem come um delicioso prato, jamais pensa em como será vazio o prato finalizado. O prazer está no durante. A beleza se apresenta é no trajeto, nem no começo, nem no final. Quem passeia de mãos dadas com o filho não fica pensando na outra margem do lago, pois a alegria já está bem ao seu lado. Quem beija não fica pensando em como o beijo vai terminar, mas ao contrário, fecha os olhos e se demora ali. Aliás esta é a principal diretriz do sexo tântrico: tirar o foco do orgasmo e valorizar o “durante”. Assim também são os poemas, que nos prendem pelo “durante”, raramente pelo final. Não é característica dos poemas terem finais de efeito. O seu efeito vem acontecendo na caminhada dos olhos pelas linhas. Aprendi que Guimarães chamava isso de “Travessia”, e dizia que era nela que aconteciam os processos mais bonitos.
  Eu não estou pregando a irresponsabilidade com o futuro. Quem me conhece sabe que eu tenho tudo em Excel, tabelas e projeções, e que minha parede tem gráficos. Mas eu lamento que as vezes, por queremos tanto ter o controle de tudo, reduzimos as possibilidades da felicidade. Nossa vida fica menor porque não aguentamos “não ter certeza”. Nossa ansiedade em querer tudo sempre pronto e decidido o mais rápido possível faz com que nós abreviemos os processos de amadurecimento. Por isso as pessoas gastam tanto com videntes enquanto poderiam gastar com coaching. Optamos por concluir imediatamente, saber logo, resolver rápido e terminar agora... então não vivemos.
  Nos iludimos achando que isso é “evolução”, mas esquecemos que abreviar os processos da vida nos impede inclusive de errar. Acontece que “enganar-se” é talvez o maior dos gatilhos para o aprendizado. Países como o Canadá que tem, teoricamente, a vida com alto índice de segurança profissional, financeiro e político, também tem dos maiores índices de suicídios. Já ouviu falar que “mar calmo nunca fez bom marinheiro”? Então.. processos de evolução pressupõem aventuras, acertos e erros. Um dia escrevi uma música com a frase: “Vem, e divide comigo a beleza de não ter certeza”. Foi meu convite para uma pessoa experimentar comigo a fantástica experiência de olhar para um infinito de possibilidades belas, e construirmos juntos a vida que bem sonhássemos.. Gosto de uma frase do Proust que é assim: “A felicidade é saudável apenas para o corpo, pois é a tristeza que desenvolve as forças do espírito”. E a minha mãe resumiu na melhor maneira “Não tenha medo de chorar..”. Não estou falando para ninguém aqui virar “emo”, mas incentivo com todo meu coração que tentemos viver mais à moda dos poemas, das músicas, dos passeios de mãos dadas, dos beijos e das belas refeições... apreciando “a beleza de estar indo”...