“Nós” sem “nós”, atados por dentro.



“Sem ti, correrá tudo sem ti.” Fernando Pessoa.
Arrepiado ouvi essa frase algumas dezenas de vezes. Na voz de Paulo Autran, um texto grande, coeso e assustador. Eu dirigia. Me inquietei. Ai me entristeci. Só então tive tempo para desenvolver.
Não somos tão indispensáveis como pensamos. Não somos vanguardistas como pensamos, tão pouco orientadores daqueles que vêm como nos julgamos. Sem nós, correria tudo sem nós.
Existiria sim grande desconforto por parte dos mais próximos. Choro e vela em algumas casas. Banhos longos àquele que nos amavam. Mas... por alguns dias. As pessoas sempre morreram. Sempre se foram. Sempre deixaram de ser o que outrora foram e na verdade são é “uma sequencia de deixamentos”. Veja por exemplo o mês seguinte a um enterro. Praticamente todos os que lá choraram já estão bem! Já foram a uma churrascaria! Talvez um ou outro demore um pouco mais, mas não chega muito mais longe. A saudade, ainda dolorosa, passa a ser pontual e vai se evaporando até se conformar em assunto esporádico à mesa. Eu não sou indispensável.
...
Comecei então a pensar pelo outro lado, o de quem fica. Não sou eu mais o morto, mas o vivo que continua.
...
Negativo. Pessoas como minha mãe, meu avô... meus tios... a Vó. Meu Deus, a Tuca. São sim insubstituíveis. São elementos que fazem de mim não alguém melhor. Muito além isso. Fazem de mim, Eu. Imerso em todas as minhas variações. Eu sou a soma deles. Sou o resultado do tempo que eles dispensaram a mim. Sem eles eu seria outro. Logo, este Eu que voz fala não estaria! Sim! E esses quando se forem, caso se vão antes de mim, eu sentirei muito mais do que com um choro. Poderei sim ainda ser um bom profissional. Um bom pai. Um bom músico. Mas serei gradativamente, outro. Pois aqueles que me fazem assim como sou, não estarão mais. Eu só existo por estes, e todas as suas variações.
Para ser o que sou preciso deles. Isso os faz indispensáveis. Percebi então que o que faz as pessoas únicas não é o que elas são, mas o que eu sou por causa delas. Não o que elas produzem ou tem, mas apenas aquilo que elas geram em mim. As pessoas indispensáveis são apenas as que geraram vida. Não nelas, mas nos outros.
Tudo então ficou bem. Cheguei em casa. Por dentro e por fora. E em paz, dormi um pouco atarde e fui dar minhas aulas...

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11 comentários:

  1. que lindo! Nossa...

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  2. Você sempre tem palavras lindas ;) obg pelo texto de hj... falou mto em mto coração ;)

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  3. Sempre se superando! Cada dia uma nova lição! Seus posts são fantásticos Minoru!
    Beijos

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  4. Cara você é um mestre nos "escrivinhamentos", por sua causa me inspiro e arrisco a escrever novamente.
    Lendo coisas assim vejo como vale a pena.

    Somos sempre o resultado das pessoas com quem convivemos - isso é lindo.

    Parabéns ! ! !

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  5. mto bom! confesso q fiquei um tempo parada olhando pro nada refletindo, me fez pensar mto!

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  6. Muito obrigado Bruna!

    Grande Rodrigo.

    Melle Souza esta é a ideia. Obrigado!

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  7. Meu caro amigo, incrível como penso nos mesmos motivos, e assuntos que vc nas mesmas epocas... pensei sobre isso essas semanas...Bom o que me importa,é que seu texto ficou ótimo, e muito esclarecedor me fez pensar em pontos importantes, além dos que já tinha chegado.... É sempre bom ter seus textos (e vc) por perto!

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  8. Deborah porque não postou mais nada? E muito obrigado!

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  9. Minoru,

    Seus textos por vezes tem o poder de abrir janelinhas paralelas em nossas mentes e nos levar a divagar em uma infinidade de cotidianas e essenciais coisas...

    Sim...eu ñ seria quem eu sou se ñ fossem as pessoas que comigo caminham, minha família, meu pai que já se foi mas continua sendo em minha vida...tudo continua, isto é inexorável, mas a ausência faz presença e também te faz novo com aquela ausência...

    Enfim...paro de divagar por aqui...deixo as caixinhas abertas em minha mente e coração como reflexão para o fim desta noite plena de quinta-feira.

    Abraços menino-poeta-tocador

    Roberta Lima

    PS! Continue a escrever

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  10. Mi acho que ando meio desestimulada... Muito bitolada... E pensando que talvez fosse melhor não mais escrever... Sinto as vezes que não trago nada a acrescentar... Não sei... Ando achando que penso demais... hihihi

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