Os balconistas de padaria


Gosto dos balconistas de padarias. Gosto de como me fazem próximo tão rápido e como flertam comigo me fazendo pensar que me deram o pão mais fresco que não deram para aquele veio antes na fila. Gosto de como estão sempre correndo. Então eu digo “Meu, manda uma bisnaga com requeijão na chapa?”. Eles respondem com “Opa, só se for agora Alemão!” ou algo do tipo e rapidamente se desviam e começam a alquimia.
  Esperando minha mãe na manicure, vi que essas não são nada assim. Uma volumosa mulher, de corpo aparentemente não saudável, enquanto se equilibrava numa cadeira minúscula -que mais se parecia com uma gaveta com rodas- dizia coisas impessoais e, sem comprometimento nenhum, preenchia o tempo necessário. Assim também sinto os taxistas, com seus penduricalhos e bancos com bolinhas de madeiras em seus carros excessivamente odorizados.
  Já meus amigos da padaria não! Mesmo nunca me visto arremessam sem medo um comentário sobre algum time e eu penso “Puxa, como ele sabe que é o meu!?” ou quando não é penso “Puxa, parece que ele sabe que não é o meu e por isso está me zoando!”. Acho que o que me prende é a frequência com que saem do meu campo de visão e reaparecem por trás do vidro alto com laranjas. Parece que não fazem questão de mim, mas depois voltam e insinuam que só estão ocupados. Gosto também quando fazem algum comentário pessoal “E a Tuca?”, “Vai o de sempre?” ou “Sozinho hoje?”. Sempre faço cara de naturalidade ao responder, mas por dentro estou eufórico prestando atenção em tudo! E quando eles conversam comigo, eu olho as outras pessoas do balcão e penso: “Vocês viram?! Somos amigos! Ele sabe o que eu gosto e conhece a Tuca! É isso mesmo. Sou amigão do chapeiro, os estranhos aqui são vocês!”. Sempre percebo que eles guardam tudo que todo mundo come sem anotar nada, e depois anotam tudo de primeira quando peço a conta. 
As frutas numa prateleira... Sempre procuro melancias e calculo se não vão cair. A destreza com que mexem nas antigas e amaciadas torneirinhas donde sai um café feito as 4 da manhã. O uniforme com dois tons de marrom...
  Perdoem a generalização mas pra mim todos eles são uma pessoa só. Como Deus, Cristo e o Espírito Santo. Talvez por isso fique à vontade sempre. Não que sejam todos iguais, mas porque já estou pré-disposto a gostar de todos.
  Quando pago a conta e me levanto para sair, vejo que já começaram o mesmo ritual com o outro cliente. Sinto um pequeno ciúme. Acontece que antes de sair eles sempre dizem alguma coisa em resposta ao meu aceno. “Até mais Alemão! De quarta vocês não passam!”. Comentou sobre o jogo! Sim, ele espera me ver de novo então!
  Reconquistado, saio e logo esqueço tudo...

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6 comentários:

  1. Pra você ver... aquele que pode ser apenas o balconista, é aquele que faz questão da gentileza e de torná-lo mais próximo, mesmo que pelos breves minutos na padaria. As pessoas gostam de se sentir "cuidadas", até pelo menos familiar.
    Você se encantaria com a gentileza do povo da minha terra!

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  2. Lembrei da padaria onde eu tomo café da tarde todas as terças... É bem isso, e mesmo sem a gente conhecer aquelas pessoas de verdade, é como se fossemos íntimos! Muito engraçado! :D

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  3. Adorei o cenário , os detalhes, e gostei daqui

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  4. Letícia Flória6 de julho de 2012 13:40

    Sei que prometi um comentário no sábado, mas acredite, não pude mesmo.

    É incrível como pessoas que "pensamos" que não nos conhecem, sabem dos nossos gostos....dos pedidos simples que fazemos na padaria rsrsrs. Se pararmos pra refletir, no meu caso eles me conhecem desde pequenina...quando ia na padaria acompanhada dos meus pais e pedia um purulito ou chiclete... Hoje vou lá e levo todo o café da manhã/tarde. Lembro-me que alguns que lá estavam, hoje não mais... mas o gosto de infância que ela me traz nos lábios é incrível...

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  5. Adorei seu texto. Muito sensível!
    São pessoas assim, de "intimidade desinteressada", que tornam nossa vida mais feliz.

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