Os quatro níveis de escuta musical


Este texto é uma maneira de dividir o conteúdo de apenas uma das aulas de análise de Sérgio Molina, um professor diferenciado.

Em toda a história, a música nunca foi tão mal aproveitada como hoje. Me reservo em não falar os cansativos clichês sobre o sofrível nível dos músicos atuais e o ilógico estereótipo dos músicos em evidencia e aclamados pela massa. Vamos focar na escuta. Ou melhor, na educação e treino para a apreciação musical.

Segundo Dante (Epístola XIII), são quatro os níveis de apreciação musical: Literal, Moral, Analógico e Anagógico.

No nível Literal encontram-se as músicas não “escutadas” mas, apenas “ouvidas”. São aquelas com fortes pulsos e marcações escrachadas. Aquelas que “mexem com o corpo”. Praticamente um mobiliário sonoro. Letras, harmonia, melodias e qualquer outro parâmetro são jogados aos cães. O importante é preencher o ambiente. -As vezes penso que para se ter uma festa hoje é só colocar um metrônomo bem alto e pronto. Todos dançam. Em fim-.

Moral é o patamar de escuta das emoções. Aqui a música diz algo e nós reagimos ao estímulo. Carregamos bagagens psicoemocionais em melodias e letras. Resumindo: Minha avó ouvindo Carmem Miranda. Este nível é o desafio da sensibilidade frente a linha tênue do cafonismo. –Eu adoro Rod Stewart!-.

Na sequência temos o nível Analógico. Agora existe uma escuta ativa. Ouvidos sensíveis a padrões, repetições, relações de texto e melodia (prosódia), timbres, interpretações e tudo o que mais pode enriquecer o acontecimento sonoro. Vale lembrar que “Só a ingenuidade, ignorância ou má fé podem achar que compreender música pode tirar o prazer de ouvir música.” Ao contrário! Quando o material é de alta qualidade somam se os parâmetros de prazer!

Dante nos deixa com o quarto nível, Anagótico. Este transcende a escuta habitual. Não só são poucas as pessoas sensíveis a este ponto, como também não são todas as músicas que podem ser ouvidas assim. É completamente subjetivo. É o mistério responsável por exemplo pela nona sinfonia de Beethoven ser infinitamente mais famosa que a oitava! Mesmo sendo as duas de nível contrapontístico altíssimo! É como tentar explicar a fama de Monalisa sobre outra obra de Leonardo da Vinci tecnicamente mais complexa! Apenas ao atingir este nível inexplicável é que pode-se classificar como “Obra Prima”.

Bom, encare como uma sugestão. Paro por aqui para não ser tendencioso –como se não o tivesse sido-. Experimente o maravilhoso mundo da verdadeira musica do quadrivium!

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12 comentários:

  1. a música sempre me acompanhou. ela nunca foi acessório; sempre presença marcante na minha vida...
    o que vc tem contra carmem miranda???
    ela é fantástica!!
    adoro seu blog!
    bj

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  2. Mi, você tem que trazer mais do seu conhecimento técnico e sensível da música pra gente. A galera tá precisando ouvir.
    Foi de grande valia pra mim, me identifiquei com cada nível, o que me confirma que a música não é uma arte qualquer ou mesmo uma criação divina qualquer. Ela está em tudo, é incrível. Aliás, acho que Deus é música, mas isso é papo pra outro post.

    Amei... parabéns!
    Beijos

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  3. Ultimamente tenho aproveitado mais esse último aí. Don't be sad - Brad Mehldau (com fone de ouvido) muda tudo. Toca lá dentro.
    bj

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  4. Bella: Carmem Miranda foi uma das cantora brasileiras que melhor dominou a técnica de variações de melodia. Desculpe se pareceu pejorativo. Não ousaria. Muito obrigado!

    Ju: Me senti muito honrado com seu comentário. E essa radio aqui do lado é uma tentativa minha! me ajudem a espalhar! É muito bom tela com essa nova visão que eu tenho. Continue em Minorulandia.

    Vivian: Com certeza vc está entendendo tudo! Experimente agora com o Avishai Cohen!!! mas o ultimo CD!

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  5. Juliana Silveira9 de junho de 2011 23:55

    Isso foi uma das coisas mais geniais que já ouvi.
    Lembrando que , segundo Dante, esses seriam os 4 niveis de apreciação artística, de uma maneira ampla. Os conceitos dessa teoria exemplificados especificamente na música foram adaptados por Sidney Molina pra um artigo na revista Guitar Class, de onde a aula foi baseada!

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  6. Sempre pensei sobre tudo o que vc disse, porém nunca tive conhecimento teórico sobre. Agora me sinto mais feliz para ouvir e saber que posso realmente sentir tudo o que sinto...E o melhor é saber que não estou maluca... Sempre é bom ser presenteado numa manhã chuvosa, com o seu conhecimento, e sentimentos!
    Amo...

    Ficou maravilhoso!

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  7. Minoru,

    voce foi um pouco tendencioso ao rebaixar tanto os dois primeiros níveis.

    Não é tão fácil fazer uma música realmente groovada ou uma letra realmente boa.

    E também esqueceu de explicar que os níves se somam, uma Obra-prima pode ser fantástica em todos eles!

    Abraço!

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  8. Ah!

    e o Quadrivium não é exatamente música e sim, o nome que era dado ao conjunto de quatro matérias (aritmética, geometria, astronomia e música) ensinadas na idade média, na fase inicial do percurso educativo, cujo ápice eram as disciplinas teológicas.

    Não esquece de colocar o nome do Sydnei Molina na citação. Afinal a frase é genial!

    Valeu!
    Abraço!

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  9. Demais! Tenho para mim que o maior influenciador musical que um apreciador ou um músico pode ter é ele mesmo!Independente do nível da escuta,se junto ou separado eles se completam!Música boa e original se faz com identidade.
    É como pensar porque uns amam pagode e outros odeiam.Tudo está muito ligado ao se ouvir. Você está com o livro Kind of Blue, você vai ver que muito da estética musical louca do Miles estava ligado a ele mesmo! Porque não teria como nascer o Cool, Bepob, Hardbop, Fusion e outras vertentes se não houvesse um ‘’escutar’’. O que falta na música atual é identidade, nada de ‘’ah meu som é parecido com o seu’’ putz por isso que não temos mais caras como esses loucos que ousavam colocar na música tudo que vibrava dentro deles.
    Muito da nossa percepção musical está atrelada ao tamanho da nossa disposição em buscar coisas novas e os porquês dentro da música. É muito louco, quanto mais você se inquieta mais você descobre e mais a música se abre e por conseqüência vc fica mais criterioso.70% da música que ouço é instrumental, quando me perguntam o porquê digo apenas, ‘’ A musica instrumental me faz criar meus universos, meus mundos’’.
    É assim que você se livra um pouco do ‘’ouvir’’ e passa-se a ‘’escutar’’.
    O que falta no cenário musical atual são músicos com identidade, músicos originais.

    Isso dá muito pano para manga rsr

    Beijos.

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  10. Nossa adorei esse post, pq meus professores das matérias teóricas de música não assim?
    Vc poderia dar uams aulinhas no lugar da minha professora de percepção? rsrs!Mas só algumas, gosto das aulas dela rsrs!
    Achei bem legal essa divisão, e interessantíssimo o nível anagótico, costumo ficar no nível analógico, e cara na moral nuuuunca na vida compreender a música tira o prazer de ouvir, na verdade só aumenta!
    Mas tenho q confessar que algumas hrs quando só qr ouvir um som até o barulho de metronomo soa como uma sinfonia rsrs.
    Bom espero q role uma outra aulinah de música por aqui =)

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  11. Post suuper!Nunca tinha ouvido falar sobre esses níveis, ótima iniciativa e enriquecedora.
    Parabéns, Minoru!

    OBS:Adorei o comentário de Elizabeth,super curti!rs

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  12. Passo uma boa e grande patre do meu tempo ouvindo música! Gostei muito de aprender isso ;)

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