04:04 Tem alguém pensando em mim.


  A Tuca (14) acredita que quando as horas do relógio tem o mesmo número dos minutos, alguém está pensando nela. Até tira foto e manda para as amigas. Claro que eu questionei e comecei a fazer isso provando que quando ela percebe que falta pouco para a tal “coincidência”, inconscientemente ela checa mais vezes o relógio. Depois, quando ela me disse “nossa! Eu vejo muitas vezes o relógio assim!”, eu sugeri que passasse a procurar pelos números das horas e minutos não mais iguais, mas agora em sequência, por exemplo 09:10 ou 15:16. É claro que, como num passe de mágica, este novo modelo passou a ser percebido com mais frequência..
  Esse experimento é fantástico porque mostra o poder que temos em ver sempre o que queremos. Ele comprova nossa habilidade de filtrar o mundo ao nosso redor de maneira a evidenciar aquilo que buscamos. Eu acredito que se as pessoas utilizassem melhor este dom, seriam mais felizes, e fariam mais pessoas felizes. Vocês precisam ouvir minha avó contando para as amigas dela como foi o final de semana: ela conta que perdeu a hora, que tropeçou, que passou mal possivelmente pelo palmito, que fulano morreu, que choveu e quando chove sempre ataca a renite, que o aparelho do ouvido está chiando... Mas ela não fala que tudo isso aconteceu com num hotel 5 estrelas, hospedada com a família inteira onde se aqueceu numa linda lareira comendo bons risotos de cogumelos... Ouvindo isso, as amigas curiosamente começam uma competição para ver quem é mais desafortunada. Uma inflamou o ciático, outra foi abandonada pelos netos, outra perdeu o gato.. ela desliga o telefone acabada.
  Claro que o contrário é igualmente perigoso, não dá pra viver num “mundo cor-de-rosa”. Mas no fundo a coisa e até simples: a todo momento coisas boas e ruins estão acontecendo em todo lugar, e é você que vai escolher o que vai reverberar e multiplicar em você. Tem gente que chama de energia, tem gente que chama de sensibilidade e a maçonaria até tem uma teoria bem bacana sobre um tal “consciente coletivo”. Ricardo Gondim chamava isso de "os óculos que eu vejo a vida". Osho escreveu sobre esta atração, Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu também, mas não dá pra provar que ser positivo realmente atrai coisas boas. O que sei é que meu experimento comprova que podemos nos educar a peneirar o turbilhão de eventos diários e “deixar entrar” coisas que dão frutos mais leves.
  O inverno sempre virá, mas com ele também chegam os bonecos de neve! Eu sentirei ainda várias dores de barriga, e em todas eu lembrarei que minha mãe me dava gohan mole. Um dia minha avó não estará mais, e neste dia eu escreverei o texto mais bonito da minha vida. Eu ainda errarei inúmeros acordes, mas isso renderá ainda mais risadas depois dos shows. Não sei quantas mulheres ainda irão embora pela minha porta, mas o Jorge disse que “todas tornaram-se pontes pra que eu chegasse a você”. Talvez roubem meu celular e isso me obrigará a ter um novo! Lembro que eu gostava de me machucar no recreio porque a tia da enfermaria era linda. Quando eu esqueci a carteira, eu conheci pessoas. Quando eu bati o carro, eu conheci pessoas. Quando eu perdi pessoas, eu escrevi músicas importantes...
  Então Tuca, não fica triste porque essas coincidências são fruto da sua cabeça. À partir de hoje, sempre que olhar pro relógio e as horas copiarem os minutos, lembra desta frase minha:

“Eu penso em você muito mais vezes que isso acontece”.



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