O efeito Maconha



Enquanto as batatas da minha irmã não chegavam, eu defendia minha ultima teoria para minha mãe: “Todo o homem, de todos os tempos e de todas as culturas, sempre encontraram alguma forma de transcender a realidade.
Não vou entrar na questão disso ser positivo ou não. Ainda.
Comecei pela música. Nas aulas de coral fazíamos exercícios para uma “respiração correta”. Era certo que depois de alguns minutos “respirando certo” muitos de nós estávamos vendo tudo mais colorido, meio tontos, rindo e muitas vezes alheios aos bons modos. Toda aquela hiperventilação me fazia mal. Ou bem.
Comecei então a juntar alguns programas do Discovery, algumas aulas e palestras que assisti. Existem rituais indígenas que são nada menos que quatro dias correndo em um circulo cantando uma mesma frase. Longas notas, ideias cíclicas e repetições de padrões constantemente na história foram utilizados em assuntos no mínimo não corriqueiros. Pra não dizer sagrados e transcendentais. Olhe os mantras! O tal do “ownnnnnnnnn”! Chegamos então nas ervas, molhos e bebidas! O Chá do Santo Daime! –reforço aqui meu respeito com as letras maiúsculas-. Repetições e padrões físicos também existem: pessoas que por ficarem ANOS sentados, ou num pé só, ou com um braço levantado se tornam Líderes Religiosos! –mais uma vez as maiúsculas-. Mas é evidente que uma hora a cabeça “vê estrelas”! Imagina agora qual a explicação que civilizações essencialmente tribais atribuiriam a isso!? Algo divino, claro!
Co-incidênciaRe-acasos? Não sei. Talvez o efeito maconha da minha aula de coral tenha me mostrado quão carentes de explicações nós somos. Quão fracos e limitados. Mas também me mostrou como somos iguais. Por todos os tempos. Mas também me levantou alguma questões:
Por que precisamos tanto de algo sobrenatural para explicar as coisas? Porque tudo que nos deixa fora de consciência é mais “sagrado”? Porque carecemos tanto de experiências alucinógenas para legitimar algo?!
Será que muitas vezes não usamos uma religião (me refiro aqui aos acontecimentos inexplicáveis, às luzes, às vozes, bolas de fogo e todo o pacote que se tem direito) como uma fuga dessas?
Reunir as boas-ações-feitas-gratuitamente, os momentos-inesquecíveis-com-pessoas-que-amamos, os bebês que nascem, as plantas com formatos engraçados, o cheiro e o sabor das coisas, a música e todas as artes, a candura agitada do mar, as montanhas e nuvens que desenham uma sinuosa linha e nela namoram eternamente... tudo isso não é suficiente para um Deus real?
Não sei, mas se a vida é curta como dizem por aí, não quero perder nada. Prefiro tentar ficar “acordado”.

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Neurônios-espelho



Os canais mais úteis da minha Televisão estão entre o 50 e 60 –Dicovery, Nat Geo, History etc...-. E foi nessa região que ontem, já bem tarde, que eu tive um encontro com algo divino. O programa se chamava Neurônios-espelho.
Leigamente: Neurônios-espelho são células ativadas quando se observa alguém que executa ou sofre alguma ação mecânica visível. Permite ao observador sentir exatamente a sensação do sujeito real da ação.
Seguiram-se explicações por demais detalhadas e experimentos indeferíveis! Pessoas desviavam de bolas tacadas na direção de outras, senhoras gritavam ao verem uma mão de borracha ser cortada e cenograficamente sangrar, um casal se excitou com cenas de outro casal, jovens riram vendo outro alguém que ria e por ai foi.
“É o princípio do 3D.” Dizia o médico muito japonês levantando as duas sobrancelhas enquanto praticamente fechava as pálpebras dos olhos, dando um ar entre o “elementar meu caro Watson” e o “tenho-5-pós-doutorados-que-me-dão-o-aval-à-arrogância” ao discurso.
Acreditam que um vídeo onde uma mulher senta e levanta infinitas vezes possa ajudar como um pré-aquecimento a uma sessão de fisioterapia!
Pra mim tudo fez sentido! Se é que existe mesmo a tal da “marca da promessa” -que os arrogantes de plantão adoram usar para se diferenciar dos humanos- só pode ser isso! O Deus que sigo, um perfeito cavalheiro, só faria tal carimbo se este o fosse o menor possível, elegante, e o principal, em todos nós. A mais bela das marcas já imaginada: Uma célula com o único encargo, sentir o outro. Sofrer junto. Chorar o corte que não é teu. Rir da piada que não se ouviu apenas por ter o riso do outro como suficiente. Gozar na caricia do outro. Ser o outro e se colocar em seu lugar da maneira mais visceral e humana possível, com todos os meus átomos. Em meio ao meu sangue.
Uma beleza irrecusável, por ser uma célula gratuita. Uma compaixão involuntária por tratar de reflexos. Um presente indubitavelmente celeste, de um Deus inegavelmente homem.

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As mulheres e suas máscaras

Não, eu não entendo de maquiagens. Pra falar a verdade sigo a “lei da porta”. Resumindo, consiste em manter um limite seguro para com os cuidados pessoais e estéticos. Da linha da porta do banheiro para dentro, tudo bem –salvo exercícios físicos e alimentação claro, me refiro a clínicas e salões-. Quando é extrapolado este limite, algo pode dar errado. Eu disse pode.
Todavia, também não entendo de chinelos mas sei identificar os de melhor qualidade e até arriscar umas justificações. O mesmo ocorre com panelas, gramados, aviões, chuveiros e canapés.
Sabe, tirando Dorival Caymmi todo homem gosta de mulher maquiada. Que homem resiste a uma mulher de salto?! Ou mesmo a uma cor bonita, aquela que as mulheres que se alimentam bem têm.
Mas é inegável que as vezes Houston have a problem. Não sei exatamente explicar o porque, mas existem mulheres que ficam com o corpo de uma cor e a cara de outra! Parecem participantes daquela brincadeira de pegar a cereja na farinha! Nossa, e existem as mulheres LARANJA! Sim! Não me pergunte o motivo. Geralmente as ricas são laranja. Há também aquelas que tem a bochecha da Pucca –uma boneca japonesa que a minha irmã tinha-. São duas bolas vermelhas iguais as daquele palhaço que anda de triciclo naquele filme que me foge o nome agora. Mas pena -e não gosto de ter pena de ninguém- sinto de algumas mulheres que andam de salto parecendo aqueles caras da praça da Sé que andam em cima dos cacos de vidro, ou como aqueles caras que correm na finada “Ponte do rio que cai” do Faustão!
Mas o pior de todos: O coitado se apaixona por uma mulher. Namora anos. Pede em casamento. E no grande dia... Ela está irreconhecível! Isso mesmo! Quando as portas se abrem, aparece uma outra que se custa a reconhecer! Pobre dos noivos míopes! Devem ficar numa insegurança! Não bastasse a roupa que já é inédita, o cabelo também se metamorfaz! Geralmente em forma de colmeia para cima-. Parece que no dia mais feliz de um casal, metade dele não comparece a festividade! Penso que o noivo fica se repetindo:
-Calma, é ela. Em algum lugar ai dentro, é ela. Calma.
Bom, sei que isso pode me render muito mais males e desconfortos do que eu espero. Mas.. Sei que por muita, muita misericórdia, Deus me presenteou com muito mais do que eu merecia...

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A passarela

Moro em Arujá. Como a todos os outros daqui, a Rodovia Pres. Dutra é um constante namoro, tão imprevisível quanto inevitável. É alguém que as vezes te surpreende com um ramalhete mas ainda no mesmo dia te represa impossibilitando o encontro. Parece ciúme.
Porque tudo isso é assim, sei cada detalhe de seu corpo. Conheço cada curva -que ela não tem-, e cada foto que poderia ser tirada. Mas ontem, na volta pra casa vi algo diferente. Uma passarela. Logo após o posto Sakamoto estão construindo uma passarela. É bonita e grande a passarela. Pensei:
“Caramba quanta gente já não vi morrer aqui. Sempre tem acidente. Sempre as pessoas atravessam aqui. Deve ser por conta das fábricas e firmas que se separam das vilas por estas pistas. Poxa, morrerá menos gente.”
Mas por infortúnio de nascença sempre passo dos limites e desenvolvo a estórias.
Porque não inventam uma passarela para a vida? Assim, para nos levantar maternalmente em um ponto e nos colocar seguro em outro mais a frente? –imaginei a cena daquela loira sendo cuidadosamente levada pelo King Kong-. Lembrei também de Fernando Pessoa convidando Lídia para que sentasse junto a beira do rio com as flores no regaço e ficasse... Sem maiores desconfortos. Poxa como seria mais fácil. Sempre a usaria quando alguém me dissesse: “Temos que conversar”. –Puts Grilo! Como seria bom!-.
Silêncio.
Entra em cena o silêncio que sempre sai das coxias quando eu sei que estou tornando os pés pelas mãos.
Dou aos cães a passarela! Não me seja poupado nada! Quero me lambuzar com todo o sangue e com todo o gozo da vida! Que venham as sete ondas para que eu não pule, mas arrebente-as no peito! Sim!
Mal aventurada é Lídia que contorna as desventuras. Então, em minha face colecionarei cicatrizes e por elas passarei noites em fogueiras com meus netos a rir e a detalhar cada um dos leões! Que venha a vida e todas as suas arapucas!
Pedágio. Preparo os dois reais e trinta centavos. –estavam aqui em algum lugar... achei.-.
-“Bom dia.”
-“Bom dia.”
-“Quer instalar o sem-parar?”
-“Não obrigado
-“Boa viagem.”
-“Obrigado.”
Retomando:
Ah... foi-se toda a opulência.
(…) Silêncio
Quem me dera uma passarela para nunca mais me desapontar com meu eu –agora sóbrio e sem graça-. Covarde e sem clima, liguei o rádio.

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