A lição das nuvens (Tio Paulo)




As nuvens ficam assim quando lá em cima está muito frio. Mexericas devem ser descascadas de cima para baixo seguindo suas fibras. Pêssego em calda fica bom com chantilly. Ameixas são boas e pistache é melhor que amendoim. Ar-condicionado reduz quatro cavalos do motor e chocolates amargos são melhores. Na troca de botijões de gás deve-se fechar o velho antes de se abrir o novo. Chupar uva com os dentes entreabertos separa o caroço automaticamente. Chuvas fracas são traiçoeiras na estrada e idosos podem sempre interromper os mais novos, não importa o que eles estejam dizendo. Quando a comida está demorando você pode misturar azeite e sal e comer com a torrada. A melhor bebida é a água com limão espremido. A melhor padaria de Arujá é a da rotatória e o melhor açougue é o do Takahashi. Mapas são importantes, assim como a nossa história.
Hoje é aniversário do meu Tio Paulo. Nosso, pois muitos de vocês também o conhecem, e ele pergunta sempre de vocês. Ele mora aqui perto. Tenho um quarto na casa dele também. Eu toco e dou minhas aulas lá. Sinto sua falta quando não o vejo e já chorei e orei muito por ele no banho. Na estrada já pensei muito nele.
Todo japonês deve ter um pé de Sakura (cerejeira). E tirar foto dela quando ela está bonita. Sempre deve-se andar com uma caneta.
Almoçamos juntos agora pouco. Ele tomou água com limão de novo, e porque foi assim eu ri. Meu tio me ensinou que mais bonita que a história de quem nunca caiu é a de quem se levantou. Eu o honro por isso. Ele crê no Deus-Homem e em sua história humana, por isso ela é celeste. E porque é celeste é bonita.
Meu tio Paulo me ensinou tudo isso. Na verdade muito mais, é que agora eu não lembro tudo. Mas as nuvens... Eu nunca esqueci.
Ao meu amigo Tio Paulo, um homem com quem se vale a pena lutar e morrer.
Eu te amo, Minorinho.

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O Medo Maltrapilho

Andando na rua vi um mendigo. Um rosto conhecido.
Era o Medo. Vestido de cinza e mal entendido.
O Medo, que tanto cuida me mim. Estava assim.
Com olhos de pedinte.
Pelitrapo desacreditado, desafinando me dizia em desafio:
“Me leva pra o lado de lá. E me mostra quão grande é o amor de que tanto falas.”
De longe vem.
Com os olhos borrados e retratos amassados na mão.
O coro o Sol já judiou. O sangue não sacia a dor.
A roupa o tempo desfiou. Os sonhos o gari levou.
Tomei-o em meus braços até acerca donde eu moro.
“Dorme neném. Eu fiz o bicho se esconder.
Levanta. Levanta teus olhos e vê os biscoitos para você.”
Em pequenos passos fui ao seu redor.
Te peguei pela mão.
Preguei o teu botão.
Limpei teu sapatos.
Te dei do meu feijão.
Vi o amor provar que a minha canção vai até o céu.


Sim.

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Os tipos de músico

Este post seria uma brincadeira sobre os vários tipos de mulheres. Porém no meio do caminho havia uma pedra. Percebi que seria perigoso demais. Descobri então que existe uma outra família de mamífero tão perigosa quanto, e esta sim seria uma ousadia catalogar: Os Músicos.
Do começo existem os músicos iniciantes, que não sabem nada de nada. Logo em seguida aparecem os “chatos de churrasco”. Estes também não sabem nada mas já criaram uma certa confiança depois da terceira musica do Legião que aprenderam. São realmente inconvenientes e incansáveis.
Temos então os “da primeira banda”. Aqui é quando três ou quatro destes aqui em cima se conhecem e se organizam para errarem juntos. Lembrem-se: “Um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais. Três incomodam incomodam incomodam...”.
Adiante eles se dividem em nichos eruditos e populares. Eruditos são aqueles que demoram a arranjar namoradas pois tocam apenas musicas barrocas e/ou renascentistas mesmo vivendo em 2011. Muitas vezes são arrogantes –salvo 5 exceções-. Como os pokemons, muitos evoluem à qualidade de maestros –estes sim arrogantes sem exceções-.
Populares são aqueles que não estudam e por isso não se acertam com os “erudas”, pois eles estudam muito enquanto dormimos. Entre os populares existem:
a) Pops- Com dificuldades e limitações técnicas, tocam na noite e tem certa visibilidade. Acham que são estrelas e desdenham dos jazzistas (que são os erudas do mundo pop, mas veremos depois).
b) Sambistas- Carregam a história da nossa terra. São a cultura viva. Sofrem com a proximidade dos pagodeiros- que nunca serão...-.
c) Jazzistas- tocam musica do século passado e se acham melhores do que todos os outros, eruditos ou não. Se julgam a vanguarda da teoria musical. Assim como os maestros, são de uma prepotência invejável. Tudo soa jazz e igual com eles. PS: são ainda os que ganham menos.
d) Rockeiros- muitas vezes são sujos e andam de preto. Sabe-se a quantidade de dissonâncias que ele conhece pelo tamanho do cabelo. Quanto mais longo, mais selvagem e indomado.
e) Tribais- Aqui entra todo aquele resto: Hippies sujos, “praieiros guerreiros”, cowboys, motoqueiros, moleques de cabelos engraçados, colecionadores de guitarras, fãs do Iron, maconheiros, Djs (estes sem comentários) e por ai vai.
f) Cantoras: basicamente são dois grupos. Feias boas e bonitas ruins. As bonitas boas estão ricas e as feias ruins foram para a pecuária.
Este é um pouco do mundo maluco dos músicos. Existem algumas outras categorias que gostaria muito de pontuar mas seria uma irresponsabilidade.
PS: é tudo brincadeira viu, na verdade nem existe nada disso.

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A Cebola do OutBack




Em tudo o que fazemos, quando o fazemos com gosto, buscamos a perfeição. É assim que medimos nossa competência seja qual for o âmbito. Porém existe um limite. Um muro alto, que quando cruzado outorga ao “bom”, o cargo de “referencia”. Que é bem diferente.
Não sei se todos o conhecem mas existe um restaurante chamado Outback, onde existe uma Cebola. E hoje, mais uma vez eu a comi. Vendo tudo aquilo que estava acontecendo em minha boca fui prazerosamente estuprado por inúmeros pensamentos.
Ela passa de um bom prato, um acerto do chefe, uma sugestão de receita. Transcende o tal do muro e vira um reflexo de toda a competência de um atelier gastronômico. Torna-se um sonho platônico de todos os outros restaurantes e anula todas as outras cebolas. Anula. Despreza. Alimenta a soberba daqueles que inevitavelmente se acham melhores do que os que nunca passaram por Ela.
Imagine você ter a envergadura para fazer de todos os seus concorrentes, meros “quebra-galhos” dos que não conseguem uma mesa. E o tempo de espera, letárgico. Separa homens de meninos. Já esperei duas hora por ela.
Sabe, esta Cebola é como minha namorada. Queria que estivesse em todos os dias importantes da minha vida. Me abastecem com fartura e minhas moringas transbordam. Causam ansiedade e satisfação. Gosto disso. Da calma que vem depois.
Registro aqui o prazer de um cliente emocionado. Não juvenilmente deslumbrado com uma marca, mas sêniormente jubiloso por se sentir respeitado.
Jobs gostaria de vocês, mas neste momento melhor ele não exagerar nas frituras.

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“A menina dos olhos”



Certa vez, no litoral do Sul da Italia, uma comunidade de pescadores tentava resolver um problema. O barco "Menina dos Olhos" andava pesado de mais, fraco demais, não aguentava mais as pescarias. Já pescava havia 43 anos em mares Toscanos.
As mais mirabolantes sugestões vieram dos quatro cantos.
-Troquem o motor!- E assim o fizeram. -Refaçam o manche!- logo foi refeito.
Nada acontecia.
Foi então que um senhor barbado, já de costas curvas pelos anos de convés apareceu, e partindo com a mão um pão de linguiça disse em voz calma:
-Tirem-no do mar.
Não tiraram metade do barco e o espanto já era geral. Todo o casco estava completamente revestido de um corpo estranho. Tão estranho quanto vivo. Era escuro e esponjoso. Dominava toda a parte da embarcação que ficava submersa.
-Raspem tudo.
Todo aquele peso foi raspado. O casco foi repintado. O problema resolvido. Dizem que semana passada mesmo a “Menina” ainda andava sobre as águas daqueles mares.

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