Mochilão à meu modo


Vejo muitas pessoas que adoram falar de Justiça. Justiça e recompensa. Acalmam as tribulações uns dos outros com o argumento da Lei de Talião. Dizem que tudo o que fizerem voltará em sua direção. Acreditam que as pessoas colhem o que plantam. Repetem em cunho de sermão: “Quem diz o que quer, ouve o que não quer”. Usam Deus como legitimador deste discurso maluco. Quantos pastores já não presenciei pregando isto... Sejamos adultos, não, não é assim. Ninguém “tem o que merece”.
Este é um discurso que nada tem a ver com a realidade, com as estatísticas. Nem mesmo de bonito na essência podemos chama-lo. Muito menos pensar que em algo se assemelha com o Cristo que eu conheço. Verborreia desta magnitude reflete em seu amago corações sem gratuidade. Pessoas que não conseguem fazer o bem, optar pelo mais ético e ir contra a maré do mundo apenas porque é mais bonito, porque gera vida! Pessoas com patologias desta natureza precisam de uma recompensa. Algo que as diferenciem dos “não salvos”. Eu tenho a marca da promessa! Por isso eu não faço isso ou aquilo! Cinismo assim é coisa de gente baixa.
Pergunto aos que têm irmãos: Alguma vez, após fazer uma grande besteira, teu irmão não foi punido pelos seus pais com a intensidade que VOCÊ julgava justa e cabível? O que de veras teus pais fizeram?
O que aconteceu é que esta sede de justiça é tua não deles. Eles amam. Ficam tristes e choram, mas amam. Neles o Amor venceu a raiva. A graça da misericórdia venceu a justiça. O Amor relativiza tudo – http://www.youtube.com/watch?v=wxgK4Oi01J8 -.
Desculpe, mas sucesso amoroso, financeiro, profissional, pessoal, familiar não são recompensas automáticas de uma vida santa, justa, ética, de amor e respeito. Deus não é justo. Deus é gratuito.
Aos que baseiam suas atitudes e escolhas no inferno, ou melhor, no medo dele. Digo que não entenderam nada do evangelho. Aqueles com quem Cristo mais se descontrolava (fariseus, exatamente os da igreja) ele disse : “As prostitutas entrarão no céu antes de vocês” e não “as prostitutas entrarão no céu e vocês não”. O que faz toda a diferença... O inferno em toda a linha da história, foi ferramenta feita pelo próprio homem para dominar, pelo medo, o outro homem. Deus não prende pelo medo, mas pelo amor. Deus ama. E é este Amor que me faz escolher por caminhos e cores mais bonitas apenas porque geram vida! O amor ao próximo deve bastar! Não se deve fazer o bem para receber o bem. Deve-se fazer o bem porque este é o legado de Javé. E o amor que não é gratuito não é amor, mas barganha.
Quando tiver coragem, muna-se de umas mudas de roupa, um cantil de agua fresca e uma bussola. Acrescente à mala uma pitada de ousadia. Transborde todo o resto com Amor. Então, aventure-se comigo pela desafiadora liberdade da trilha de Jesus Cristo de Nazaré.

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A Ilha

“Grandes são os desertos meu filho, e tudo é deserto.” Fernando Pessoa
Nos despedir é diferente. Não sei... O Homem não foi educado para despedidas. Se despedir de alguém é complicado. É interessante. Hoje eu estou me despedindo de umas 200 pessoas, as quais passaram quase um mês comigo –cada uma com segmentos maiores ou menores de presença-.
Estou neste momento sentado num lugar alto. Lá embaixo uns choram. Lá embaixo alguns riem e choram. Há aqueles que cantam alto e fingem encarar com destreza tudo isso. Outros agora também choram aqui a minha esquerda. Alguém ao fundo também, assim como eu, observa. Aquele não chora.
Ao mesmo tempo que me despeço, outros que vieram buscar estes que me deixam, sentem exatamente o oposto de mim. Mas estamos a apenas alguns metros de distância. Percebo também que alguns irão sozinhos, o que deixa tudo muito mais pesado. Pior que a saudade é não ter saudade. Alguns aqui nunca mais se reencontrarão. E eu sei por experiência no lugar cá onde estou. Nunca mais. Mas ainda assim trocam contatos em vão.
Malas coloridas e volumosos embalos talvez de cobertores vão inundando o local outrora de encontro. Eu observo de cima. Desconcertado eu observo de cima. Do alto de uma escada escondida. Que confusão por dentro. Não sei se rio com os que riem o reencontro ou brado o soluço calado dos que vão. Definitivamente eu não fui adestrado às despedidas. Elas caem como um “ré bemol” em um acorde de “dó 7M”.
Uma música de fundo começou agora a ser tocada talvez para mascarar o desconforto. Alguém ao microfone graceja e relembra acontecimentos engraçados dos dias aqui. Colorem então, de rosa as bochechas dos sujeitos citados. São piadinhas assim que vez ou outra me dão folego. Tão breve quanto o meu ponteiro mais fino eu rio. O ligeiro tumulto é o testemunho da não vontade de ir.
Já me perguntaram (os que me veem com o computador sobre as pernas) se trata-se de mais um post isto que digito. Prometeram checar Minorulandia ao chegarem.
Gosto da Ilha. Como qualquer alienação ela faz mal em excesso, mas eu gosto da Ilha.
Desculpe, mas vou parar de escrever. Estou perdendo os detalhes.


Tetelestai

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O Evangelho da Maçã


Depois de algumas noites conversando, alguns irmãos e eu chegamos a uma conclusão assustadora: O evangelho da Maçã. Não se trata apenas de mais uma Leitura de vanguarda. Extravagante para os mais fundamentalistas, porém de inegável coerência. Vamos aos fatos.
Desde o princípio já nos assustam as semelhanças. Uma pessoa, muitas vezes inesperada, aparece com uma ideia nova, ou melhor, uma boa nova. Sim, ai ela te apresenta tudo aquilo, um mundo lindo. Fantasias. Poderes. Uma inteligência presente e objetiva. Uma proposta de vida. Um Renascimento.
Todos os que seguem esses valores, inevitavelmente ao se encontrarem, ainda que na primeira vez, já gozam do júbilo de uma assustosa e inevitável amizade. Trocam experiências! Ensinam e aprendem renovando o espirito! A Maçã gera vida. Ela une os homens. A Maçã está chegando a todo o homem. Eu creio. Eu e a minha casa.
Assim como no evangelho primo de Nazaré, ao se criar intimidade com a fonte, percebe-se que a negação dessa opção é quase um retrocesso. O inimigo sabe disso e te oferece tudo. Preços baixos. Facilidades. Mas nós não abrimos mão, somos Maçã. Optamos por esses valores e critérios que geram vida. Há uma evolução dos juízos de valores. A conversa sobe gradativamente de casta. Lindo.
À semelhança do cristianismo, nós maçãs, sofremos da mesma fraqueza, uma “aparente” prepotência. Ao vermos alguém que não optou por tamanha mudança, ficamos com dó e isso é horrível. Mas me tranquilizo pois agora entendo que é apenas uma louca vontade minha de que o outro saboreie comigo deste novo mundo. Daí o “aparente”, pois isso não é prepotência, é Amor.
Outra semelhança é que também não somos aceitos no mundo todo. Em muitos lugares somos, ainda hoje, tratados de mal grado. Mas a labuta daquele que crê nunca foi fácil. As iniciais de ambos os líderes são “J”. Sim... também estou arrepiado.
Durmo todas as noites tranquilo porque sei que alguém está acordado cuidando de mim. E não descansará até que meus problemas sejam facilitados. Ele torce por mim. Meu sono é leve como o sono dos justos. Me sinto cuidado como alguém que nina num berço de retalhos.
Aqueles que vem do lado oposto, não se julgam Hermanos aqui. Todavia, eu não me abalo. Firme na rocha eu sei quem eu sou. Sei de meus valores e não abro.
Eu creio na Maçã. E ainda ve-la-ei em toda a Terra.
Jobs vive. Tetelestai.

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Os Fantasmas e o óleo de Peroba

Bichos não me assustam. Barulhos não me assustam. Fantasmas não me assustam. Pessoas me assustam. E na confraria desses que me assombram, um subgrupo é o superlativo disparado: Pessoas que têm certeza.
Nada me assusta mais que uma pessoa que está completamente certa do que faz e diz. Pessoas convictas são como confeiteiros que preparam lindos bolos mas restringem o prazer de degusta-los apenas aos colegas confeiteiros. Pessoas que têm certeza olham para um jardim e dizem: “Que pena, nem todos esses botões florescerão”.
Pessoas sólidas em suas “verdades”, obrigatoriamente optaram por uma única cor e aboliram todas as outras de uma bela paisagem. E o triste é que sentem prazer nisso. Sentem prazer em quadros monocromáticos. E o mais triste ainda é que muitos das gerações seguintes a eles, jamais provarão da beleza das outras cores. talvez nem mesmo saberão da existência delas.
Pessoas com certezas, têm sede de justiça. E me assusta a avidez com que rogam pela justiça, até a de Deus! Li uma vez num livro: “Nunca na história o homem teve tanto prazer na violência, como quando estava embasado em uma razão religiosa.” O crente é violento. Suados, vibram ao gritar sobre suas guerras. Mesmo o mais manso dos homens, ao entrar nesse grupo de pessoas instantaneamente ganha um “alguém a ser combatido”. Na casa onde se celebra o Amor daquele que trouxe Vida, o presente de boas vindas é um “inimigo”. A tudo isso não dou o nome de Louvor, mas sim Incoerência. –desconstruo com liberdade as maluquices das quais faço parte-.
Certeza é cadeado. Incerteza é um bilhete de milhagens. Certeza é insensibilidade. Incerteza é acreditar que todos podem me ensinar. Certeza é ser professor militar. Incerteza é Jean Piaget. Certeza é morte. Incerteza é vida.
Também me ensinaram que “Os maiores massacres da história da humanidade foram feitos por pessoas que tinham certeza”. -Sem citar perdas culturais como a Biblioteca de Alexandria.- Os nazistas têm certeza. Os Romanos tinham certeza. Os americanos têm certeza. Os portugueses tiveram certeza. Os samurais tinham certeza. Os Policiais militares tiveram certeza em 2 de outubro de 1992. O Primeiro Comando da Capital têm certeza. Os crentes também.
Eu?.. Não, eu não.

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A maquina dos 5 minutos


Gozando da conquista da nossa intimidade, me sinto liberto para dividir minhas estranhezas. Eu não sou maluco. Talvez um bipolar voluntário, por puro hedonismo.

Desde a infância, desde aquelas perguntas dos três pedidos ao gênio”, desde muito, eu sonho com uma máquina. A Máquina dos 5 minutos. É visceral a minha vontade de que um desses japoneses do Kumon ou aqueles americanos da NASA inventem algo que me permita voltar no tempo. Não é muito, apenas 5 minutos. Não almejo corrigir erros, refazer propostas ou reaver amores. Quero apenas pesquisar um de meus vícios. Reações. Sim! Saber o que as pessoas fariam se por ventura eu ousasse dar vida a todas as minhas vontades e impulsos.
Queria ver minha mãe reagindo comigo chegando em casa com um tigre. Ver como me atenderiam no divre do Mac Donalds se eu pilotasse um elefante. Ir para a faculdade pintado inteiramente de verde. Andar de metro pelado. Comer as flores da mesa de um restaurante caro. Beijar um outdoor com uma mulher bonita. Chegar àquele palhaço e dizer: “Nossa, você é muito bobo. Não tem absolutamente nenhuma graça”.
Como as pessoas reagiriam!? Isso me corrói à dar câimbra nas entranhas!
Chegaria no pedágio e contaria todas as minhas mágoas à mulher da cabine. Entraria numa academia de lutadores de vale-tudo e gritaria repedidas vezes “viadinhos! Viadinhos! Viadinhos!”. Como reagiriam!? E se eu chegasse na Festa das Cerejeiras de Campos do Jordão com uma serra elétrica e cortasse todas!? E se Eu fizesse o test-drive numa dessas lojas de carros e de repente fugisse para o México?! (não que desse tempo em cinco minutos, apenas diria que iria).
Eu adoro as reações de reflexo. São elas que dizem quem as pessoas são realmente. Denunciam seus valores e vontades. Encantam. Eu faria um pique nique na livraria Cultura!
Bom, acabei de me dar conta do que eu estou fazendo. Como ainda não a tenho vou parar por aqui enquanto ainda existe algum orgulho.
Desculpe o bolodório. Foi vomitado num impulso.

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Carta aos pais

Assim como aquela conversa numa padaria (post: “Seja membro de uma padaria”), ontem também tive uma conversa avalanche. Por traquinagem do acaso, de repente começou. De homem para homem. Indefensável. Mas o que queria dividir são minhas conclusões sobre os pais.
O que diferencia filhos de pais, é apenas o número de experiências elementares –acontecimentos que exigiram decisões e que, posteriormente passaram por uma “peneira” de aprendizado-. Essa bagagem de experiências elementares permite que eles construam critérios de avaliação melhores embasados que os nossos. Possuam um juízo de valor muito mais denso que o nosso. Matemática.
Mas... Em se tratando de primogênitos (ichiban para nós nipônicos), os pais de primeira viajem encontram-se em terras desconhecidas. E como conseguinte não têm ainda bagagens suficientes para “acertarem na mosca sempre”. Ou seja, remoçam à infância! Genial! Tornam-se criança simultaneamente com seus filhos! Começam do zero! Voltam a usar rodinhas! Sim! Pais são adultos de rodinhas!
E o mais interessante, é que não importa quantos filhos se tenha. A diferença existente entre ter um, dois, três, filhos faz com que sempre se volte a estaca zero! Nossa! Ser pai é ser eternamente criança! É trilhar pelo desconhecido a cada “novo primogênito!
O que quero dizer com toda essa maluquice, é que nossos pais também estão aprendendo a educar. É como explica o mestre Rubem Alves “educar é natural do corpo, não vem em livros de pedagogia”. Nossos pais estão suscetíveis ao erro como nós. Eles já foram filhos, mas nunca foram pais –contextualize à você “nunca foram pais de um, dois, três...-.
Todavia, existe uma diferença. Os filhos são dependentes –por mais que você jovem petulante negue-. Os pais não, por isso apenas amam. O que faz toda a diferença pois existe gratuidade. E é esse amor que os machuca quando erram. E nós não imaginamos esse peso.
Pais, errar amando não é errar, é se doar. Quem se engana amando não se equivoca, dá exemplo. Por isso me orgulho de vocês.

Pois me dão a impagável tranquilidade de quem se sente cuidado. Amado. Eu amo minha mãe. Eu amo meu pai. Mais ainda porque assim mesmo me amariam ainda que eu não os amassem.
As lágrimas me atrapalham digitar neste momento, e meu coração está disparado. Eu sou o fruto não do que vocês acertaram ou erraram, mas do que sonharam que eu fosse. Pois o amor transcende o palpável e trabalha com a fé.
Quando for a minha vez de voltar a infância, assim também amarei. Porque não me contentei com as flores de um mundo efêmero,
mas as reguei com a água viva que me alimentaram no meu lar. E com o amor que recebi, aumentei os dias de vida dessas flores.
Amém

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