Duas lágrimas e um baixo acústico



Quando chego lá, danço por dentro.
Se choro, o silêncio é gris.
Quando toco não basto em mim mesmo, e ainda em alegoria
verto lágrimas gentis.

Quando em rodas danço por dentro.
Se choro, verto verso salgado.
Quando toco, ainda que tropo. Me acaricia Deus com um baixo molhado.

Som é silhueta
A saudade é cereja
Avó é pijama
Baixo é acústico.
Um pequeno hotel em São Bento, hedonismo rústico.

Som é chave
Saudade é privilégio
Mãe é doce de leite.
O que tenho é minha música por favor aceite.

Quando minha casa está cheia danço por dentro.
Se choro...
Se choro danço por dentro.
Pois quem chora acompanhado não chora. Compõe.
Escreve e dança.

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A distância de Heyko



9 de Setembro de 1937.
Querida Heyko, hoje fincamos acampamento em algum lugar perto de Pequim. A guerra começou. Meu companheiro de barraca Hayashi foi atingido ontem. Fizemos um funeral as margens de um belo rio aqui. Amanhã encontraremos os alemães e marcharemos para Nanquim.Estou morrendo de saudades. Imagino que os dentes do Matsuo já estão aparecendo! Como penso nele... Peço que lhe mostre fotos minhas... E conte de mim a ele... Diga-o como sou fiel ao Imperador! Não entendo ao certo sua sabedoria, mas assim que honra-lo em batalha voltarei o mais rápido possível.
Te amo muito. Sinto tua falta.
Com amor, Mukai. Vida longa ao Imperador

6 de Dezembro de 1941.
Querida Heyko, já são mais de quatro anos... Tua foto nunca saiu do meu uniforme. Por favor, não deixe que meu filho se esqueça de mim. Eu vou voltar!Chegamos à pouco aqui no Hawaii. Estamos nervosos, antes de amanhecer invadiremos uma base dos americanos.Não se esqueça de mim... Eu temo... Muito... Muito...
Com amor, Mukai. Vida longa ao Imperador

de Julho de 1942
Amada Heyko dominamos o Pacífico! Tomamos Hong-Kong, Malásia e Singapura! Rumaremos para as Filipinas ao anoitecer! O mundo conhecerá o poder do Sol Nascente!Diga ao meu menino que o amo! Sei que o Matsuo já está falando. Ensina-o meu nome! Tua imagem já domina meus sonhos. Te amo muito! Eu vou voltar! Te amo! Prepare tudo do que melhor tivermos! Eu vou voltar!
Com amor, Mukai. Vida longa ao Imperador

17 de Agosto de 1945.
Amado Mukai, bombardearam nossa cidade. O mesmo fizeram com Nagasaki. Tudo está destruído. Tua guerra matou meu filho.
Heiko.

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O Retrocesso da Especialização


Algumas convenções culturais que me estupram goela abaixo afloram meus instintos mais primitivos. Mas nas últimas duas semanas venho percebendo que uma em especial não faz o menor sentido, é essa mania de especialização.
Especialização é o nome dado a estúpida mentira que engana pessoas “letradas”, fazendo-as pensarem que estão ficando mais inteligentes e superiores. É o nome acadêmico para emburrecimento geral, do latim ignorâncious geralius. Resumindo: cada vez mais cada um só sabe conversar fluentemente sobre um determinado assunto e sob um ponto de vista. Consequentemente com apenas um grupo de pessoas. O resultado é a masturbação dos mesmos chavões e das mesmas balelas de sempre, pois pode-se andar apenas por escassos assuntos comuns a todos os “mestres” e “doutores” (sabe-se lá do que).
Um sabe tudo de articulações e curiosidades intravenosas, o outro só sabe falar do que tenha notas musicais –de resto ele baba- . Um terceiro só sabe falar dos desenrolares do mercado inflacionário. O último resume-se a leis. Pronto. É a festa do desarranjo. Quatro répteis resumindo-se aos quatro assuntos básicos...
Essa palhaçada toda começa no ensino médio –que por incrível que pareça eles não remetem “médio” à inteligência do modelo- quando se tem que escolher matérias a abdicar. Assim, “sobre quais desses assuntos você quer não saber conversar?”.
Queria eu ter uma escola aos moldes renascentistas! Ou ainda mais, participar das famosas Ágoras gregas que depois viraram Pnyx! Lá todos discorriam sobre estrelas, números ou notas com a mesma naturalidade que comentavam os jogos da semana! Todos tinham cultura para escolher seus líderes, e face à face questiona-los com argumentos não rasos, os rumos por eles tomados. Por que? Porque não eram especialistas oras! Me disseram: “mas logo não eram bons mesmo em nada.” Não! Ignorante! Todos sabiam tecer conclusões lindamente arrazoadas! Aliás, ser especialista, no século V era pejorativo incrustrado apenas nas camadas mais “insignificantes” da plebe!
Aconselharam-me então: “Sabe, você tem que definir um assunto para abordar em seu blog, não dá para ficar falando sobre tudo” –nessa hora eu quis voltar atrás quanto a não acreditar no inferno-. Não! Seu rato! Não se deve falar apenas do que se sabe, mas sim falar sobre tudo para saber mais do que foi falado! Exatamente por estudar muito música é que são raríssimos os meus posts sobre música! Isso não faz sentido?! Eu gero mais discussões nas coisas que eu menos sei! O objetivo não é ganhar, mas crescer. O movimento não está em responder, está em perguntar.
O que acontece é que alguns tem, pelo alucinógeno do puro “orgulho”, vergonha de ser corrigido. Logo, o mais seguro é mudar de assunto. Manter-me em campo mapeado, jogar em casa. Isso é muito baixo. É simplesmente pouco. São escolados sem instrução.
Solte numa selva uns Especialistas e o Sr. Manoel, jardineiro aqui de casa, veja no que dá. Estes arrogantes pós-doutorados seriam jantados pelo Sr. Manoel. Abandonem um Especialista e o meu avô Zeca, lá de Piracicaba no vazio. Limpem seus traseiros com seus diplomas. Dou aos cães teus predicados de títulos!
O mundo é mais que o assunto que você se aprofunda. E você é menos assunto que imaginas. Acaso alguém faz uma trilha com um laser? Não, só é possível com uma lanterna. Pois o foco é mais aberto.

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Os Escorpiões e os Panetones


Este é um post espontâneo numa roda de amigos. Por favor mulheres, não leiam. Nos permitam um momento FX (canal 47).

Não que eu seja completamente avesso a moda ou as tendências de vanguarda, mas eu ainda sou do tipo de homem que aprecia esbeltas varoas. Todavia, nem tudo são rosas.

Rapazes, me corrijam, mas nunca antes mulheres fartas de finos traços foram tão insuportáveis. Parece que quando elas ouvem “oi, tudo bem?” o ouvido traduz: “Nossa estou apaixonado! Vamos transar?”. Então elas te tratam como um plebeu mendigo! Não sei o que acontece. Mas é ruim.

Outra coisa curiosa é a TPM, mas essa nós homens com “gosto de época” temos que aprender a conviver. Imagina que uma mesma pergunta, se feita em três dias espaçados no mês podem ter três respostas completamente diferentes!

Exemplo: “Oi, vamos ao Mac Donald?”

resposta A) Sim! Que lindo! Você valoriza o simples! Te amo!”

resposta B) “Não...Ué, porque não chama o Mukão ou o Vitor de novo?”

resposta C) “Quem é você?”

A dica é marcarmos em secreto num calendário nosso as variações da Lua. Aí não gastaríamos fichas.

As vezes chego a pensar que belas mulheres com TPM são como os panetones com uvas passa: Seriam perfeitos, não fosse um pequeno detalhe.

É por isso que eu sou contra a pena de morte. Imagina um azarado sendo julgado por uma meritíssima num desses dias “selvagens”?! A mulheres falam coisas que não pensam quando estão assim. Mas mesmo assim magoa. A TPM é mais ou menos como aquelas tartarugas vermelhas no Mario Bros, são apenas um detalhe numa fase, mas com um toque podem fazer você ficar bem pequeno e com dois dá Game Over. Porém, se tiver destreza, você passa e ganha uma moedinha.

Ser hetero é um exercício diário a todos os Escorpiões. E temos muito prazer nele. Amar é aceitar ser humilhado uma vez por mês. É traduzir “Sai daqui!” para “Me deixe só, não é nada com você”.

Quer saber...já dizia meu avô...”Pequeno guaxinim, não chores, as mulheres são como as cebolas...

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Os quatro níveis de escuta musical


Este texto é uma maneira de dividir o conteúdo de apenas uma das aulas de análise de Sérgio Molina, um professor diferenciado.

Em toda a história, a música nunca foi tão mal aproveitada como hoje. Me reservo em não falar os cansativos clichês sobre o sofrível nível dos músicos atuais e o ilógico estereótipo dos músicos em evidencia e aclamados pela massa. Vamos focar na escuta. Ou melhor, na educação e treino para a apreciação musical.

Segundo Dante (Epístola XIII), são quatro os níveis de apreciação musical: Literal, Moral, Analógico e Anagógico.

No nível Literal encontram-se as músicas não “escutadas” mas, apenas “ouvidas”. São aquelas com fortes pulsos e marcações escrachadas. Aquelas que “mexem com o corpo”. Praticamente um mobiliário sonoro. Letras, harmonia, melodias e qualquer outro parâmetro são jogados aos cães. O importante é preencher o ambiente. -As vezes penso que para se ter uma festa hoje é só colocar um metrônomo bem alto e pronto. Todos dançam. Em fim-.

Moral é o patamar de escuta das emoções. Aqui a música diz algo e nós reagimos ao estímulo. Carregamos bagagens psicoemocionais em melodias e letras. Resumindo: Minha avó ouvindo Carmem Miranda. Este nível é o desafio da sensibilidade frente a linha tênue do cafonismo. –Eu adoro Rod Stewart!-.

Na sequência temos o nível Analógico. Agora existe uma escuta ativa. Ouvidos sensíveis a padrões, repetições, relações de texto e melodia (prosódia), timbres, interpretações e tudo o que mais pode enriquecer o acontecimento sonoro. Vale lembrar que “Só a ingenuidade, ignorância ou má fé podem achar que compreender música pode tirar o prazer de ouvir música.” Ao contrário! Quando o material é de alta qualidade somam se os parâmetros de prazer!

Dante nos deixa com o quarto nível, Anagótico. Este transcende a escuta habitual. Não só são poucas as pessoas sensíveis a este ponto, como também não são todas as músicas que podem ser ouvidas assim. É completamente subjetivo. É o mistério responsável por exemplo pela nona sinfonia de Beethoven ser infinitamente mais famosa que a oitava! Mesmo sendo as duas de nível contrapontístico altíssimo! É como tentar explicar a fama de Monalisa sobre outra obra de Leonardo da Vinci tecnicamente mais complexa! Apenas ao atingir este nível inexplicável é que pode-se classificar como “Obra Prima”.

Bom, encare como uma sugestão. Paro por aqui para não ser tendencioso –como se não o tivesse sido-. Experimente o maravilhoso mundo da verdadeira musica do quadrivium!

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A minha carta ao meu amigo


Sob o exemplo de meu avô, me inquieto também por meio de uma carta. A minha.
Diante da situação atual -na qual opinião razoável só tem quem lê seus livros e acompanha suas mensagens semanalmente– sinto-me não na obrigação, mas no prazer de descer do muro e gritar minha posição em praça pública.
O ato optar por participar do que aconteceu nesta manhã traduzido em palavras ficaria assim:
Amigo, a sua coragem me libertou para entender o evangelho da maneira mais bonita que já chegou até mim. Suas noites de sono gris deram vida aos meus sonhos. Você não se acomodou; meu coração se encheu de Amor pelo diferente. Sua irradiação de carinho apaziguou o rio da minha casa e seus septuagenários.
Grato é o meu coração porque hoje vivo em Nazaré. Lúcido. Tão lúcido quanto livre. Você me ensinou o caminho do amor não pelo medo ou pelo perigoso costume da ortodoxia, mas pela trilha da gratuidade. Suas palavras me deixam face a face com Cristo.
Durma bem todas as noites pois límpida é tua história. Acorde e tome café sem pressa todos os dias pois teu legado é maior que teu corpo. Passeie pela linda do dia sem endurecer sua sensibilidade.
Hoje te vi frágil e sensível. Porque foi assim é que o momento se tornou humano. E por que foi humano é que se tornou celeste. Logo, tornou-se eterno. Nunca esquecerei desse domingo de manhã.
Sinto-me como um baixo acústico que se encantou com uma partitura feita por alguém que entendeu muito bem o Maestro. E porque é assim, hoje minha música é mais bonita.
Cravo aqui minha palavra: “Eu estou junto com você e não abro! Não nego! Não me omito!” E se acampar na praça Tahrir um dia for necessário, minha barraca estará lá ao lado da sua. Com toda minha família dentro. Por opção. Amor.
Este é meu choro. Meu abraço a Ricardo Gondim.
O Pastor Poeta.
Minoru Rodrigues Ueta Raphael

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