As rugas de uma pétala


Como todos os dias passei por lá. Como de costume joguei as chaves. Previsivelmente descansei o baixo por sobre seu sofá preferido. Mais uma vez então abri a geladeira. Até que virei. Não entendi nada! Parei imediatamente tudo o que fazia. Perdi a sede, ou fome não me recordo exatamente.

A mesa estava enfeitada com uma flor. Uma flor murcha. Como assim?! Quem havia feito aquilo?! Cautelosamente aproximei-me de seu entorno à pequenos passos. Sentei-me. Servi-me da água que buscara –essa completamente coadjuvante agora- .

Por uns quatro minutos eu fiquei lá. Especulando. Nossa, quem fez isso? Ela está murcha. Queria entender aquilo.

Até ai não havia dado nem um gole da tal água.

Com o mesmo súbito que veio o espanto, também agitou a resposta. -Lindo! Mas é claro! Lindo!-.

Há muito mais beleza nesta flor que em qualquer outra em pleno vigor! Quem seria a pessoa com colossal sensibilidade para enxergar a delicadeza não de uma pétala reluzente, mas de uma com as rugas que as câimbras de florir deixam? Aquilo era uma lição avassaladora diante dos meus olhos! Alguém, sabendo da condição da flor, ainda sim optou por deixa-la. Só poderia ser alguém que trabalhasse com um nível de sutileza absurdamente fora do normal. Tal escolha mostra com clareza quais as prioridades e o que essa pessoa valoriza! –desculpem tantas exclamações mas estou atônito-. A pessoa precisaria entender o valor de tantas tardes que essa já havia nos presenteado. O valor da história e não de sua aparência do momento. Precisaria sentir o aroma suave e celeste daquilo que não mais está. Ah... Haviam de estar muito entrosadas... Certamente eram confidentes... Sim, pelo tempo que está em casa essa flor. Certamente ja haviam tido grandes conversas...

Feliz. Calmo. Emocionado. Levantei. Dei mais um gole e ainda fitando-a arrumei a cadeira tal como estava. Me despedi. Orgulhoso, pois tinha certeza de quem era capaz de ter pintado aquele quadro.

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Seja membro de uma padaria


Só ela salva...

De um ano para cá as conversas mais desafiadoras que tive aconteceram em uma padaria. Assim foi o começo da minha mudança. Numa conversa como todas as que Jesus Cristo de Nazaré tinha gosto. Com verdade. Com amor. Com comida e bebida e bem longe da “igreja”, ou dos que se julgavam assim.

Como achar uma maneira cabível e coerente para como Deus pensa? Como saber garimpar alguma beleza em meio a tanta verborreia? Ai a resposta veio tão simples que me constrangeu: “Ué, Ele não enviou à Terra um homem de carne que reflete seu pensar? Veja como Ele conduzia as situações!” –O pior ainda estava por vir- “ Tudo o que não condizer com a posição de Cristo, não tem nada a ver com Deus. Mas é um ÍDOLO criado pelo homem para legitimar SUAS vontades, medos e fraquezas.”

-Ai ferrou-. Mas Jesus nunca puniu ninguém! Nunca castigou ninguém! Nunca apontou o dedo! Nunca expôs! Nunca falou de inferno! E o inferno?! Se todo mundo for para o céu, então eu posso fazer o que eu quiser?! Matar, estuprar, roubar, trair e mentir que eu vou para o céu?! Não! Isso não faz sentido! Não é justo! Ai fica muito fácil! Não é assim! E meu esforço enquanto outros pecam muito mais feio!?

O que acontece é que muitas vezes não aceitamos a possibilidade de um AMOR tão grande, tão desmedido, tão... Tsunami. Que chega a ser injusto. O amor de Deus é injusto de tão descabidamente grande. É como dar meu baixo preferido à alguém que acabou de me dar um soco e cuspir na minha mãe. Foi então que percebi que essa minha “sede por justiça” era uma tentativa MINHA de me justificar e validar escolhas que acolhi sem entender nada da mensagem desse Amor irracional.

Como eu não estava fazendo tudo aquilo que “não pode” mas passando vontade, precisava de algum jeito me acalmar. Assim achei muito boa essa ideia: mandar todos os que o faziam para o inferno.

“bom elas estão lá se divertindo com aquelas maluquices, mas eles vão para o inferno e eu não. Ufa!”.

Um bom exemplo: Na minha casa depois da janta sempre minha mãe lava a louça. As vezes minha tia está. Ela dificilmente lava os pratos. Mas quando o faz, fica brava se não está todo mundo lavando! O que a desconforta não é o lavar. É perceber-se fazendo algum esforço enquanto outros que não estão nem ai, terão o mesmo fim! Ela é a boa então?! -Exatamente como eu me encontrava!-

Mas... A minha mãe também nunca ganhou nada. Ela faz de graça. Por amor a nós. E também não fica falando tudo que lavou, arrumou ou limpou. Nem “obrigado” ela ouve. A diferença é que ela faz porque acha certo e não porque pode ganhar algo com isso. Uma vez ouvi “A beleza de uma causa não está no que ela pode lhe proporcionar. Mas em quanto você está disposto a pagar por ela”.

Assim também eu entendo hoje a vida cristã. Viver com cores diferenciadas não por medo, mas por que são cores mais bonitas para pintar minhas páginas. Isso é a vida eterna! Não “não morrer nunca”, mas viver com valores que se eu tivesse “dias infinitos” eu não me cansaria de viver! Porque minhas ações geram sempre mais vida!

À propósito: “Leite Queimado” (quem acompanha o blog entenderá).

Faça caramelo com 3 colheres fartas de açúcar. Coloque 2 canecas de leite. Reduza por 35 minutos com uma canela em pau dentro. Genial!

Sei lá... acho que no final das contas... o evangelho é isso ai... Passar uma coisa que te dá prazer adiante. Como uma receita de Leite queimado. Que veio da minha avó, da minha mãe, de mim... pra vocês...

E você, o que tem pra dividir?

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Carta ao leitor


Muito prazer, Minoru.

Quero que você durma bem hoje, e que amanha seja bom!

Que por favor me de teu farto para que eu carregue.

Que o elevador sempre esteja lá quando você chegar.

Que sempre tenha pastel de queijo na hora.

Sempre haja uma vaga. Uma cadeira livre. Um ombro.

Quero do fundo do meu coração que você goste de voltar para casa. E que lá os teus te esperem.

Que tenha paciência para comer sobremesa.

Que você não caia na rua, porque isso envergonha.

Sonho que ninguém mais procure Deus para ganhar nada.

Que tenha prazer em fazer as coisas de graça.

Espere sempre um pouco para entrar na piscina depois de comer. –não sei se faz mal mesmo, mas na dúvida...- .

Que venha à minha casa! Por mais longe que mores! Ai então inventaremos teorias furadas e comeremos batata frita a noite toda!

Que tenham um bom relacionamento com os mais difíceis da família, da faculdade, escola, trabalho e com o japonês chato do Kumon –que sempre sabe tudo antes-.

Quero que não chame mais os dias chuvosos de “Dia Ruim”. Eles são bons! Acontece que você tem que aprender a usa-los! Não, eles não são só pra chocolate quente! Assim como os dias de Sol não são só para praia!

Veja beleza nas pessoas e tenha prazer com elas.

Toque mais nas pessoas. Permita-se ser mais encostado.

Abrace sem malícia. Reaprenda a sentir arrepio com um beijo na bochecha.

Beba Vinho! Gire a taça e invente nomes malucos como aqueles caras que também fingem que entendem!

Brinque com a mangueira. Toque algum instrumento –o baixo é o mais legal de longe-.

Ah! Que nunca acabe o papel! Nem a agua! –e se acontecer, conte a história de um jeito muito engraçado!-.

Faça leite queimado para alguém! –eu passo a receita para quem quiser!-.

Ore por mim. Por você. Pela minha avó. E pela minha família no Japão.

Sejamos amigos próximos à partir de hoje.

Me mostre quem é você! Comente! Eu realmente quero conhecer quem são esses números.

Muito obrigado. Por me dar agora mais 10 minutos do seu tempo.

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Musica, Deus e um sonhador...



Este Post será diferente. Não tenho absolutamente nada à acrescentar. Talvez porque esteja perplexo ainda.

O acaso me levou a um cara diferenciado, Rob Bell. Desculpe a ignorância. Não conhecia. Estou paralisado. Constrangido diante de tamanha beleza. Sabedoria. Lucidez e Vida.

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Sim, Sexo.



Hoje me permitirei. Peço apenas que ao ler esse texto esteja aberto para reconhecer se acaso houver aqui algo de verdadeiro ainda que do tamanho de um grão de mostarda. Diria até um post camicase.

Nas mais diferentes matizes do pensamento cristão um assunto mal explicado sempre passou desconfortável. Sexo. Não que seja aceitável essa deficiência -longe disso-, mas até aí entendo justificável por razões históricas. Toda essa infantilidade, “dedos”, “desinstrução” e inexperiência de líderes pudicos não vem de nenhuma herança da bíblia hebraica, nenhuma tradição dos apóstolos e muito menos de alguma fala de Jesus. Todo esse pessimismo sexual que milita contra o prazer sensorial demonizando a experiência tátil, vem da influência de pensadores estoicos e gnósticos sobre os cristãos dos quatro primeiros séculos.

Por conseguinte uma geração “bomba relógio” foi parida.

Pela superficialidade e sentimento de pejo por parte dos que deveriam “pastorear”, a minha geração ainda tem um nível de instrução que inibe até a simples pronuncia da palavra pênis. –muito mais ridículo que isso são os risos e entreolhares. Não. Mais ainda são os pastores que fingem ser descolados e forjam pregações “esclarecedoras”-.

Mulheres já formadas não se conhecem, “meninos granada” não podem assistir filmes com cenas de nudez sem se excitarem e o pior, jovens casados não se sentem à vontade para transar nem após o bendito casamento! Que também já vem acontecendo cada vez mais por ansiedade e não por amor!

A falta da luz então, deposita sobre a Abstinência uma pseudo-segurança.

Acredito eu que o que não me cabe é a imoralidade e a promiscuidade. O desrespeito com o outro. O uso do outro. A desvalorização minha e nossa. A falta de Amor com o momento. Ser respeitoso, honesto, honroso e digno não tem nada a ver com uma data. Por isso é mais fácil aceita-la do que mudar a postura. Obedecer a cartilha te polpa da responsabilidade inerente à assustadora liberdade do evangelho.

Platonizo esse como o mais magico dos momentos. Quando dois se despem por dentro. Quando se desaparece o redor.

Quando se personifica o Amor da maneira mais humana possível, e porque é assim torna-se celeste e divino. Assim como um dia um Deus divino e celeste se fez homem, por Amor.

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Valsa para Lua

“O Poeta é um fingidor . Finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que de veras sente.”

Fernando Pessoa

É esse o maior brinquedo do artista. Sua maior insígnia. Sua maior conquista. A liberdade para passear por diferentes personalidades. Não com o desarranjo mental de um bi polar, mas com a sensibilidade de quem personifica os dois lados de uma lágrima que não é sua. Não com o pejorativo da manipulação, mas com a candura de um deus homem.

Livre então, ele corre entre as árvores onde as sensações nascem, fala com elas e de tão puro cai no sono ao fazer um piquenique não planejado.

Preso também, não goza da benção da desatenção. Mas anda pela rua e nota a cor da bochecha rosada por vergonha, da boca molhada de desejo, dos olhos meio cerrados de fadiga. Chega em casa estupefato de ser. De ser tudo. De ser tanto de tudo em tão curto segmento de tempo.

O poeta não muda de cor gratuitamente como um camaleão. Esse o faz para dentro, para esconder. O poeta o faz para fora! Ciganeia de pseudônimo em pseudônimo para atingir mais longe! Onde o braço daquele que sente originalmente não chega! Se fantasia por dentro para que suas palavras saiam coloridas. Pinta a cara para sangrar aquele que sente mas vai quieto.

Seja com a fragilidade do trovador tétrico, ou com a nostalgia do gari na quarta-feira de cinzas, poeta teima em suar sentimento. E digo “suar” porque esse é um ato involuntário.

O poeta é desnecessário. Mas eu não me importo. Isso o faz gratuito. O que deixa tudo muito mais bonito.

Minoru Rodrigues Ueta Raphael

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