O atrapalhado fruto verde


Hoje tive uma daquelas conversas com a minha mãe. Mais uma vez, suave como a canela, me pois de volta ao meu lugar. Lavou toda a minha arrogância e prepotência com uma chuva de coerência.

Me envergonhei de ver o tamanho da pena que eu tenho de mim mesmo ao fazer certas atividades “desconfortáveis” no dia-dia. De ver a desonra da minha geração por sua não consciência política. De ver como eu prego uma coisa e vivo outra. De ver meus queixumes infantis e imediatistas diante de empasses pífios.

Baguncei mais uma vez em baús empoeirados de minha memória, histórias de todos os meus familiares e novamente concluí que a minha ainda é a mais leve das fainas.

O pior de tudo é que quem à chamou para conversar fui eu! Crente que a segurança ensaiada no banho me daria veracidade e peso em todos os meus científicos argumentos experientes!

A voz baixa me constrangeu os carregados e apontados pulmões. A candura do olhar enlaçou minhas mãos por detrás. O cuidado com as palavras me deitou maternalmente na lona aos 37 segundos por nocaute.

“Jesus cristo nunca apontou o dedo. Cativava o diferente pelo amor. Dê seu tempo às pessoas e não ao seu computador ou à você mesmo. Seja prudente e zeloso com os mais vividos pois tu, outrora serás também obsoleto mesmo aos olhos de quem amas.”

Foi assim. Curto. Pontual. Elegante. Indefensável.

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“O Pseudo Samaritano”


Didi, Dedé, Mussum e Zacarias.

Antes de me decapitarem e jogarem meus restos num córrego, preciso pontuar alguns lugares comuns:

“-Sim, acredito em missões. Não. Não podemos nos fechar numa bolha.”

Meus entraves são com alguns valorosos missionários e os discutíveis métodos usado para seus fins. Não só por ter gosto, mas também por trabalhar com materiais culturais, é que vejo o saldo muitas vezes negativo dos “bandeirantes de Cristo”. Vejo uma bomba de boas intensões sem mira. Uma Ferrari com um motorista bêbado. Uma avó cozinheira com um neto que não come peixe. Um desperdício de energia e tempo. Muitas vezes um desfavor.

A verdade é que tenho asco da ideia de “vamos salvar do inferno esses selvagens!”. Primeiro, se friamente pensarmos: nós, quem somos os que precisam de MAIS para sermos felizes. Nós, quem somos capitalistas compulsivos. Nós, quem desejamos dominar o mundo, nós quem deformamos nosso corpo de tanto comer como leitões em regime de engorda! Nós somos os que precisam de ajuda!

Por favor! Como assim?! Chegar à uma cultura séculos mais antiga que a minha; em uma família muito mais estruturada do q a maioria do meu povo; com tradições e pessoas que a seguem de maneira muito mais honesta do que eu digo que vivo a minha e com a arrogância e a prepotência que só um pífio cristão ocidental sabe ter. Chego com o ar de que “vou coloniza-los espiritualmente e impor minha visão sobre Deus muito mais segura e coerente para o bem deles”.

“ -Ainda bem que você chegou hem seu safado! O que seria de nós?!”

Hoje os índios Aimorés sabem que não podem viver sem pasta de dente Colgate, mesmo tendo vivido séculos sem! Hoje os índios Kaapor na mata ciliar do rio Amazonas não vivem sem gasolina para suas Hondas XLR.

Assim como Lutero e Calvino pregamos ainda nos dias de hoje uma teocracia extremista, determinista ou não, mas interesseira, conveniente, corrupta e manipuladora nos moldes do formato “mega- church “ de produção.

É óbvio que não posso aceitar uma mulher ser condenada à morte por apedrejamento em pleno ano dois mil. Mas não é tão simples entrar na casa de alguém com uma cultura quase três milênios mais antiga que a minha e dizer “Você está maluco, à partir de agora você vai seguir as regras do meu novo e abusado povo do lado bom e civilizado do mundo.” Nós enforcamos Sadan Russen! Eixo do mal? Como assim!?

Qual o respeito nesse evangelho maluco de vocês?! Boa parte de nossa documentação cultural indígena se esfumaçou graças a bons samaritanos que um dia vieram falar desse Jesus que você não entendeu! Toda a biblioteca de Alexandria, com pergaminhos e registros manuscritos de Aristóteles e muitos pensadores do oriente foram queimados numa lambança dessa!

O evangelho é amor e relacionamento...

Ah... Chega. Já estou suando... Me poupe.

...Deus tenha misericórdia de nós. Porque eles, eu tenho certeza que vão para o céu...

Minoru Rodrigues Ueta Raphael

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Um copo meio cheio


“A Saudade é a coroa de um passado”

Fosse o Tempo uma criança, nada lhe lambuzaria mais o sorriso que uma saborosa e farta fatia de saudade.

Saudade é o gemido da alma pela abstinência do outro. É o agradecimento mais descalço e sem orgulho que alguém pode oferecer. É o vazio mais preenchido e denso que se pode experimentar, pois é uma lacuna que transborda de amor. É o abraço de longe. É a vontade física de estar junto. É a dependência química do cheiro. É o frio que busca o abrigo pontual e específico. É a chaga nas mãos. É a justificativa da existência. É o porque de estar aqui, e mais do que isso, é o porque de sermos assim.

Te tenho dó quando Eres temida ou repudiada. Eres o superlativo da nobreza e gratuidade pois pulsa à partir de um cheiro de bolo. De um perfume que passa. De uma piada sem graça. Da porcelana antiga do prato de natal. Vaza de um pensamento no metrô.

Mais candura que “Eu te amo” é apenas “Senti tua falta”. E por que senti tua falta, é que agora meu corpo treme nesse lanche da tarde. Empeloto a fala e coço o nariz repetidamente pois estou nu e desarmado à espera do seu abraço.

Sob o chuveiro é bom ter saudade. Saborear o privilégio de ter a inegável marca fisiológica da deficiência de alguém. A sede perene do toque intransferível.

Canta minh‘alma pois tenho do que sentir saudade! Tal agrado só poderia ter sido à mim remetido por Deus. Um perfeito cavalheiro.

Tarde. Dirijo na estrada para casa.

Que essas lágrimas que me lavam a face, meus olhos escamados em vermelho e meus lábios molhados que me dão aparência de humilhado -e preocupa o cobrador do pedágio- chegue onde quer que estejam meus amigos neste instante.

Que carinhosamente batam em suas portas e como O Sopro, abençoe os teus de tuas casas. Pois alguém sente tua falta. E tem muito prazer e respeito nisso.

Amém.

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