A inocência da segunda chance.


Querido diário de bordo:

“Há três anos não via o mar. Há três anos entrei no mar pela última vez. Três anos é muito tempo.”

Esse foi meu último pensamento diante da interrogativa sobre a viagem. Ele explica não só minha cor dourada mas também minha resposta -Sim, vou à praia-.

Cá estou eu. Na companhia de pessoas adoráveis (isso não foi irônico); diante de um pesadelo de infância. Eu definitivamente não posso com o calor. Ele me vence. Ele me humilha em praça pública e eu fico assim, mais do que incomodado. Prostrado. Fico magoado. Eu coço no calor, e por essa minha condição eu deito acuado no chão de ardósia e mudo minha bochecha de lugar em ciclos de 30 ou 40 segundos. Pois é o tempo que a mesma precisa para esquentar. Abraço postes e tudo mais que seja de concreto (eles são frescos). Passo vergonha. Dou vexame.

Os muitos banhos passam a imagem de Transtornado Obsessivo Compulsivo, mas não sou. Acontece que a água fria, como que por chacota, cai na minha cabeça, desce nada sensualmente pelo meu corpo e chega ao ralo já morna!

Não da.

No calor pessoas brilham. Dobras como cotovelos e joelhos colam. Camas humedecem. Frutas amolecem.

O ventilador engana. Quando se sai de sua “linha de misericórdia” você está mais quente que outrora estava.

Tenho que desligar o computador. Estou há um tempão no ar-condicionado do carro na garagem, as pessoas já estão me procurando. Me deseje força. Completei cinco horas aqui, são só mais cinco dias...

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Bravia



Não é fácil sentir-se completo. Poucas pessoas atingem a sensação de total gozo e entendimento da sua existência. Isso porque poucos momentos têm a dimensão necessária para expressar o infinito e nebuloso motivo dessa existência.
Hoje, ainda que com minha sola do pé não muito gasta, concluo que não tenho mais o que perguntar à Deus. Delicado dizer isso, eu sei... Mas o motivo é que agora é clara à mim, a finalidade da minha vida. O método que usei para chegar a tal conclusão foi o “ eutrocaria? “. Simples. Sempre que sentir aquela calma celestial misturada com uma felicidade transbordante, quase que alucinógena, pergunte-se : “Eu trocaria esse momento por aquilo, aquele, aquela?”.
Assim, empiricamente, percebi que eu sou como uma televisão. Que só faz jus de existir quando está sendo usada. Ligada. Tomei noção de que quando não estou tocando, minha utilidade fica como que em Stand by. Talvez não inteiramente anulada, mas com certeza parcial.
No banho, me abalei com a importância que eu, rendido como um escravo de mãos e pés atados a uma bola de ferro, outorguei à Musica. Não apenas me apoiei mas construí toda minha vida e meus sonhos sobre esse único pé! Quando estou ligadosou o homem mais forte do mundo. Nada é forte o bastante. Nada é rápido o bastante. Nesses minutos eu não preciso buscar Deus. Porque eu transpiro Deus e logo molho minhas costas. Mesmo acordado, Ele me despe, me limpa e me nina num ritual materno. Lá mesmo no palco ou onde quer que seja. Todas minhas interrogativas se esfumaçam diante dos meus olhos. Deus fala por meio do meu contrabaixo. No mínimo fala comigo. O maior agrado que os céus poderiam me dar.
Mas o mais genial é que quando a televisão está transmitindo alguma coisa, ironicamente é o momento em que ela se anula. A mensagem em questão vem ao primeiro plano. A marca, os pixels e todo aquele mundo de ornamentos vanguardistas são desprezíveis.
Assim também somos osmúsicos diante de sua progenitora. Uma gaveta cheia de joias esquecida em alguma escrivaninha no meio do deserto. Mas uma gaveta plena e no clímax de sua existência. Amém.

Minoru Rodrigues Ueta Raphael

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O Ladrão de Havaianas

Quem é Deus?

Deus é esse cara aqui sentado do meu lado. Na verdade ele está é louco para entrar no FaceBook dele. Por isso está aqui. Eu sei, eu sei, você está achando tudo isso muito estranho. Na verdade acho que não está o-reconhecendo porque ele está sem barba. É que nós estávamos brincando de deixar só cavanhaque mas ele deu uma errada. Ah! E essas havaianas também não são dele não! Elas são é bem minhas! Acontece que ele é cheio de querer usar branco, ai já viu.. A Iraci viu aquela imundice e pois tudo na cândida.

Agora que estou de férias estamos aproveitando para tirar algumas músicas. Ele tem me dado umas dicas de improvisação e campo harmônico.

Sempre acorda antes de mim. Pela noite sentamos na varanda, e com muita Ruffles e Coca-Cola ele me fala sobre as estrelas até a hora que somem com o despertino. Logo, de manha estou morto de sono, claro..

No café, nos viramos sempre com oque tem. Frequentemente esquecemos de fazer compras, ou simplesmente não temos coragem de parar o filme no meio, quando lembramos da falta da manteiga na pipoca. As vezes ele é meio chatinho. Implica com as minhas torradas. É que eu gosto das minhas no 7” e ele põe sempre a torradeira no “3”.

Rimos quando derramamos Nescau ao mexer a colher pequena demais para o copo, ou quando um de nós sobra com a “bundinha” do pão de forma.

Ontem ele queria pescar. De tanto insistir eu cedi. Fomos até o mar. Peixe na verdade não pescamos nenhum. Nem comigo usando a história de André e Pedro como chantagem! Mas passamos boas horas de conversa. Hoje estou vermelho como um pimentão e tenho que aguentar chacotas do “donzelo”. Mas tudo bem..

Fomos à pouco comprar um vinho para mais tarde. E ele não me confirma, mas afirmo com segurança que no episódio do casamento onde transformou água em vinho, apostei que era um Carmènére 2006! O preferido Dele! Aposto! Nosso amigo Vitor diz que outra opção seria transformar em agua “Buena Fonti”, mas ele trabalha na Danone... não vale.

Em fim, temos que sair. Estamos fritando batatas e ele está comendo tudo sozinho! Pilantra!

Beijos! Digo... Tchau! Ah depois eu volto!

Minoru Rodrigues Ueta Raphael

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